As imagens recentes de força policial desmedida contra manifestantes pacíficos não são apenas um episódio triste que ensombra o espaço público; são o sintoma de uma panela de pressão prestes a rebentar. O epicentro desta contestação social é inequívoco: o acesso a um teto. Como ecoou nas ruas, a crise da habitação não se resolve com repressão policial, mas com diálogo, vontade política e respostas reais. O Governo, o poder político e sociedade civil devem assumir a habitação como uma verdadeira emergência nacional e executar um plano estrutural com a meta de resolução a cinco anos. A nossa Democracia exige mais.
Os números da asfixia: O alerta do Banco de Portugal
Para compreender a urgência de um plano a 5 anos, basta olhar para a insustentabilidade financeira das famílias. Dados recentes do Banco de Portugal (BdP) ilustram a asfixia transversal da classe média. A alteração do BdP aos limites da taxa de esforço no crédito à habitação para os 45% reflete esta nova realidade. Com a escalada combinada do preço das casas e do custo de vida, os portugueses foram atirados para o limite do risco financeiro. Quando o regulador tem de ajustar os limites de endividamento para evitar ruturas, torna-se inegável que o mercado livre faliu na sua função social. O pagamento da casa representa, hoje, uma fatia esmagadora do rendimento.
O diagnóstico: As raízes de uma crise estrutural
A raiz desta escalada começou por volta de 2014. A intervenção da Troika dizimou o setor da construção civil, provocando falências e a emigração de mão de obra, fazendo Portugal perder capacidade física de construir. Simultaneamente, a procura disparou num mercado desregulado: alterações à lei das rendas, o boom do turismo e os incentivos a capitais estrangeiros criaram uma hiper-financeirização do setor. A isto somam-se três bloqueios crónicos:
- Burocracia: Processos camarários que demoram anos, encarecendo os projetos.
- Falta de Solo: Planos Diretores Municipais (PDM) restritivos que criam monopólios de terrenos.
- Fiscalidade: Carga fiscal asfixiante (IVA a 23%, IMT e Imposto de Selo) aliada à insegurança jurídica.
A inspiração internacional: Viena e Singapura
Para cumprir o plano a 5 anos, Portugal deve olhar para modelos que retiraram a habitação da pura especulação.
A solução estrutural de Viena
O modelo austríaco elimina a ganância especulativa, funcionando sob recuperação de custos e lucro limitado. A cidade gere 220.000 habitações municipais e as Associações de Lucro Limitado outras 180.000. Financiado por um imposto de 1% sobre os salários, o sistema garante que 60% dos vienenses vivem em habitação subsidiada. O resultado? O mercado privado é forçado a competir com rendas tabeladas. A renda média global ronda os 10,50€/m2, libertando rendimento às famílias e injetando dinheiro na economia local.
O Estado como promotor em singapura
Através do Housing & Development Board (HDB), o Estado aloja 80% da população, focando-se na classe média. O modelo assenta num Leasehold de 99 anos: os cidadãos compram o direito de habitar, mas a terra reverte para o Estado no fim do prazo, salvaguardando o solo público. É financiado por um fundo de poupança obrigatório (CPF) e cravado de barreiras anti-especulação, como a ocupação mínima de 5 a 10 anos.
Um plano de emergência a cinco anos
Para resolver a crise numa década, o Estado tem de assumir o papel de promotor e regulador ativo através de quatro pilares:
- Quotas urbanísticas: Inspiradas em Oxford e Viena, as autarquias devem usar os PDM para impor quotas obrigatórias. Novos loteamentos privados têm de destinar uma percentagem substancial a habitação acessível.
- Direito de superfície: Acabar com a venda de património do Estado. Ceder o uso do solo público a longo prazo (50 a 90 anos) a cooperativas e privados, retendo a propriedade e controlando as rendas máximas.
- Fim da especulação: Eliminar benefícios fiscais regressivos e injetar urgentemente os milhares de imóveis devolutos (públicos e privados) no mercado.
- Fundos rotativos: Abandonar a dependência do PRR. Reativar o histórico cooperativo nacional com terrenos e empréstimos a juros baixos, onde o capital pago é continuamente reinvestido em nova habitação.
O direito à habitação não tem cor política, é uma base estrutural da sociedade. A repressão não constrói paredes; o planeamento, sim. Assumir a crise como emergência nacional é o único caminho para evitar o colapso social.
Tiago Corais
