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Tragédia em Yorkshire Wildlife Park

© DR

A tragédia deu-se a cerca de vinte milhas de onde eu moro. Mais propriamente no Yorkshire Wildlife Park, em Doncaster, e a notícia correu o mundo. 

No dia 10 de Outubro, por volta da 1.30 da tarde, os serviços de emergência foram chamados ao Yorkshire Wildlife Park, porque um homem tinha saltado para o recinto do tigre Altai, um felino da raça Amur – ou também conhecido como o Tigre da Sibéria.

Segundo algumas testemunhas o homem estava sozinho, usava auriculares, gingava de um lado para o outro, e de vez em quando dançava. Foi nesses propósitos que foi avançando barreiras de proteção até saltar para o recinto do tigre. 

Nas imagens que circularam pela internet, – claro que foi filmado. De facto hoje em dia não é a preocupação de tentar salvar alguém em apuros e situações de perigo, a primeira reação que ocorre, mas antes, filmar a tragédia, – via-se que o homem não foi logo atacado pelo Tigre. Mas as suas investidas de frente ao animal, as suas gesticulações, e a maneira como atraiu as atenções do Tigre, levaram a que este agisse por instinto acabando por atacar. O homem foi pronunciado morto no local, apesar de todos os esforços médicos.

Quem era este homem? O seu nome, William Harry Bruce Chapman, um jovem de 24 anos, nascido em Chichester, West Sussex. William Chapman foi um ex-actor infantil Britânico que apareceu em várias produções de televisão no Reino-Unido. Descrito pela família e amigos como um jovem brilhante, caloroso e cativante, muito amado por todos quantos o conheciam.

William sofria de uma doença mental significativa de longa duração, incluindo esquizofrenia e psicoses, e estava prescrito com medicação bastante forte. Tinha-se mudado para Doncaster, segundo ele mesmo, para começar a sua vida de novo. Vida essa que terminou com uma tragédia, tanto para ele, bem como para a sua família que com toda a certeza deve ter ficado em estado de choque ao receber a noticia.

Mas o que me leva a escrever este texto nem é bem a tragédia em si, que essa, por respeito à família do William Chapman, dispensava bem o que já foi escrito e falado acerca da mesma. O que me leva a escrever este texto é a minha indignação da estupidez e da baixeza de muitos energúmenos que aproveitaram esta desgraça para fazer dela uma comédia. Comédia de mau gosto entenda-se, porque ninguém mais do que eu aprecia uma boa dose de humor. Mas partilhar nas redes sociais o vídeo, e nos comentários escrever as parvoíces mais ordinárias, mais baixas e maldosas, tentando fazer da tragédia um corridinho de piadas de um gosto que deixaria embaraçado o maior idiota de que há memória, demonstra bem aquilo que diz  – Pedro Chagas Freitas – na sua mais recente publicação, O Livro do Pechimperé – Há tanta gente merdavilhosa, Tão maravilhosa por fora como cheia de merda por dentro.

A quantidade de pessoas que fizeram os comentários mais absurdos, desrespeitosos, cruéis em muitos casos, foi enorme. Não só aqui no Reino Unido, como também no Brasil e em Portugal. Aliás os primeiros comentários desses seres merdavilhosos li-os primeiro de pessoas que escrevem na língua portuguesa.

Fiquei não só desiludido com a natureza destes seres merdavilhosos, como ao mesmo tempo envergonhado. A ignorância não está na pessoa que não sabe ler. A ignorância está na pessoa que não tem empatia ou respeito por quem sofre. Está na pessoa que não sofre, quando perante uma tragédia a ela fica tão indiferente que se esquece de que há quem esteja a sofrer.

Fiquei tão indignado com a maioria dos comentários feitos à vitima de uma tragédia que foi fruto da consequência do sofrimento mental de um jovem de 24 anos de idade, que perguntei a mim mesmo, – Será que estes filhos da puta não se lembram que este jovem tem um pai e uma mãe que neste momento estarão a sofrer uma dor inconsolável e insuportável? Será que estes merdosos não se lembram que a doença mental não escolhe estatutos sociais, não diferencia entre filhos e pais, irmãos, amigos ou apenas desconhecidos?

Como se isso não bastasse, o idiota do costume, grave o suficiente, está à frente dos destinos de uma superpotência, utilizou também a tragédia para mostrar mais uma vez que pelo menos, no que respeita a ser um grande merdavilhoso, não desilude. Sr. Presidente da Trampa partilhou na sua plataforma social imagens do ataque fatal, escrevendo algo como “Não brinquem com a natureza.” Mais tarde publicou um vídeo, gerado por inteligência artificial, mostrando-se a domar um tigre e a brincar com ele.

Há coisas que não escolhem pessoas ou estatutos sociais. Ou seja, qualquer um pode estar sujeito a elas. Um vírus fatal, uma doença cancerosa, uma tragédia, um hospital, a cadeia.

E há coisas que são escolhas de pessoas, não importa o estatuto social. A estupidez, a ignorância, a maldade, a crueldade. Ninguém nasce para ser estúpido, ignorante, maldoso, cruel. Mas pode ser tudo isso se assim o quiser.

Ninguém é perfeito, nem nunca o será. Mas se em todos os dias da sua vida reconhecer essa realidade e a tentar aperfeiçoar, nunca será perfeito, mas não andará muito longe disso.

António Magalhães

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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