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O mundo está em combustão e os pirómanos dançam

© DR

O Verão de 2026 foi dos mais quentes de sempre. A Europa estava em brasa, literalmente. Com canículas sucessivas e incêndios. Em França, fogos de uma dimensão nunca antes vista destruíram 120 hectares de floresta, o equivalente a metade do território do Luxemburgo. Em Espanha  foi ainda pior, quase 300 mil hectares. Portugal também foi severamente afetado e chegou a registar a maior percentagem de área ardida da UE logo no início do Verão, calores extremos e ventos fortes que entre janeiro e o final do verão devastaram mais de 53 mil hectares.

Para piorar tudo isto, quando a casa arde, os pirómanos dançam. Os tiranos fascistóides continuaram a brincar às guerras com soldadinhos de carne e osso. Brincam com a geopolítica, as eleições e com os bloqueios económicos, mas quem paga a fatura é quase sempre o mesmo — quem trabalha. Em vez de mandarem os filhos para as suas guerras ilegais, congratulam-se que as suas crias se casem majestosamente a expensas de oligarcas russos bilionários. O xadrez mundial mudou mesmo. EUA, Rússia e Coreia do Norte são agora aliados, pelo menos, é o que garante Donald Trump. É o mundo ao contrário, mas com Trump deve esperar-se tudo. Até o mais estúpido e sobretudo o pior. É uma lei universal: eles fazem a política, nós fazemos as contas. À nossa vida e ao nosso bolso. 

Canadá e Europa são vistos agora por Washington como inimigos. Portanto, veio a calhar quando Ursula Van der Leyen, presidente da Comissão Europeia, convidou esta semana o Canadá a tornar-se membro associado da UE. A Austrália disse logo que também estaria interessada. Ao tabuleiro imposto pelo louco que invadiu a Casa Branca, a UE desenha um novo eixo e propõe avançar com um Conselho de Segurança Europeu com a Noruega, Reino Unido, Ucrânia e Canadá. Se Trump engripar a NATO, será este o Plano B?  

Trump é instável, está cada vez mais caquético, e continua a demonstrar que, para ele, a política é um reality show diário. Durante a sua deslocação à Turquia para participar na Cimeira da NATO e perante uma ameaça de ataque iraniano ao seu avião no regresso, Trump foi colocado numa carrinha de catering por razões de segurança. Um presidente escondido entre caixas de comida seria uma excelente cena de comédia se não estivéssemos a falar de uma escalada militar real que afecta o mundo.

Esperamos que tenham tirado o presidente da carrinha de catering a tempo e que não o serviram no voo seguinte, pois os passageiros teriam por certo uma intoxicação alimentar ao depararem-se com um Trump laranja em vez de pato com laranja. 

A tensão no Médio Oriente aumentou e o bloqueio naval no Estreito de Ormuz levou os preços da energia a aumentar, os transportes ficaram mais caros e a inflação chegou à carteira dos trabalhadores.

No Luxemburgo, a gasolina e o gasóleo ultrapassaram esta semana os 2 euros por litro. Quando o petróleo aumenta a milhares de quilómetros daqui, a carteira do trabalhador sente-o imediatamente. Quando desce, curiosamente, parece precisar de mais tempo e autorização para o preço descer na bomba.

No seu insano tabuleiro de xadrez, Trump prepara-se para mais uma jogada  fascista. Voltou a pedir a Elon Musk para supervisionar o processo eleitoral das eleições de meio-mandato de novembro próximo, que servem para renovar os assentos no Congresso dos EUA. Recorde-se que Musk afirmou há um ano, quando estava de candeias às avessas com Trump, ter manipulado as máquinas de voto eletrónicas a favor de Trump nas Presidenciais de 2024 — uma declaração que gerou polémica. Zangam-se as comadres, descobrem-se as verdades. Mas a Justiça não investigou, porque Trump é quem manda na Justiça. Viva a separação de poderes. O duo dinâmico prepara-se assim para voltar atacar a democracia. 

Trump demitiu funcionários da Comissão de Vigilância das Eleições que não eram afetos aos Republicanos e quer envolver a Polícia de Imigração ICE no controlo das mesas de voto. A pergunta é simples: o que é que a polícia de imigração tem a ver com eleições? Já agora, Trump devia era chamar os bombeiros já que por aqueles lados a democracia é matéria inflamável. A intenção é clara: os agentes ICE vão estar nas mesas de voto para impedir certos e determinados eleitores de votar e assim fazer pesar a balança a favor dos Republicanos. Foram introduzidas restrições ao voto presencial, que podem afetar as mulheres cujo nome atual não coincide com o que consta do seu registo de nascimento. Há mais de 10% de mulheres nesta situação nos EUA e esta barreira burocrática aparentemente neutra pode transformar-se numa barreira concreta ao exercício do direito de voto. É uma forma original de discriminação: primeiro pergunta-se à mulher se o nome dela ainda é o mesmo; depois, se houver tempo, pergunta-se em quem quer votar. E se for votar no “bom candidato”, pode votar. 

No aniversário dos 25 anos do 11 de Setembro, Trump afirmou que pretende pagar 5.000 dólares a cada americano caso os Republicanos vençam as eleições. Sabemos que é mentira, Trump já prometeu outros cheques anteriormente relacionados com as tarifas e o corte das despesas na Administração Pública, mas os cidadãos americanos não viram a cor do dinheiro. Além disso, é ilegal e anticonstitucional comprar votos. Não é Valentim Loureiro quem quer. Só falta Trump começar também a oferecer eletrodomésticos como o mais famoso major de Gondomar nos anos 1990. 

Acham tudo isto louco? Nós também. A verdade é que Trump controla o Congresso, tanto a Câmara dos Representantes como o Senado, mas também o Tribunal Supremo e estes três poderes, que deviam equilibrar e zelar pela bom desenrolar da democracia e da justiça, ou pelo menos impedir os excessos do Presidente, deixam Trump fazer tudo, até o mais estúpido. Nesta altura do campeonato, depois de tudo o que já vimos e assistimos incrédulos diariamente, a pergunta já não é “será que Trump vai fazer isto?” mas: “O que é que ele ainda vai inventar?”

Esta promessa bacoca dos 5 mil dólares prova que Trump está em pânico. Vários republicanos alertaram já que se os Democratas vencerem as eleições de meio-mandato, há muitos deles que vão parar à prisão. Mas, afinal, só quem não deve não teme!

Trump não admite ter perdido a guerra contra o Irão, mas a verdade é que já não controla nada: o Estreito de Ormuz está nas mãos dos iranianos, as bases americanas foram dizimadas, e a guerra que Trump declarou 19 vezes ter vencido nunca mais tem fim nem acordo à vista. O conflito no Médio Oriente em vez de se apaziguar acaba assim de abrir uma nova frente de deflagração. No Iémen, os rebeldes Huthis, apoiantes do Governo do Irão, capturaram há dias a cidade portuária de Mocha, no Estreito de Bab el-Mandeb, e controlam agora uma das principais portas de entrada e saída do Mar Vermelho e portanto, o acesso ao Canal de Suez e ao Mar Mediterrâneo. Se juntarmos este bloqueio ao bloqueio do Estreito de Ormuz, temos um gigantesco engarrafamento geopolítico das rotas comerciais e da energia no Médio Oriente.

Pior engarrafamento só nas estradas do Luxemburgo em hora de ponta. Resultado: o preço do barril de petróleo ultrapassou os 100 dólares e o preço dos combustíveis disparou.

Aqui está outra regra da economia mundial: os responsáveis pelo conflito discutem estratégia, os mercados especulam e quem vai trabalhar de carro começa a fazer contas antes de encher o depósito. Bem sei que os transportes públicos são gratuitos no Luxemburgo, mas nas horas de ponta, comboios e autocarros, e até o tram, já estão a abarrotar. Acho que o melhor é começarmos a praticar a marcha a pé ou o ciclismo para ir trabalhar. Talvez vocês não saibam localizar Bab el-Mandeb no mapa. Eu não sabia. Mas depois da última ida à bomba, tive que procurar e agora já sei onde fica. Mas isso não mudou o preço da gasolina.

Marine Le Pen:  As regras é para os outros

Em França, a polémica continua em torno de Marine Le Pen, líder da extrema-direita do Rassemblement National (RN). Le Pen foi condenada pelo desvio de três milhões de euros de fundos do Parlamento Europeu. A sentença inicial, de março de 2025, determinava cinco anos de inelegibilidade, o que bloqueava a sua ambição de disputar a Presidência francesa. Em julho deste ano, o Tribunal de Recurso reduziu esse período para 15 meses. Como o tempo já cumprido foi contabilizado, abriu-se legalmente o caminho para a candidatura de Le Pen às Presidenciais de 2027. Será a primeira vez que um candidato às Presidenciais em França fará campanha de pulseira eletrónica. Le Pen diz-se vítima de um conluio da Justiça francesa. O fascismo chega assim ao país da Declaração dos Direitos Humanos, a bradar pela liberdade. Umberto Eco bem nos avisou.

Mas há aqui uma pequena ironia política difícil de ignorar. Le Pen sempre defendeu que quem fosse condenado por desvio de fundos públicos deveria ficar inelegível de forma vitalícia. Parece que, quando a regra bate à porta da sua própria casa, a fechadura já não funciona tão bem. É uma tradição bastante antiga da extrema-direita: defender leis duríssimas para os outros, mas pedir clemência quando chega a própria vez.

Entretanto, dentro do seu partido, recomeçam as guerras de sucessão. Marine relegou para segundo plano o seu antigo delfim, Jordan Bardella, dando preferência à sobrinha, Marion Maréchal Le Pen. Bardella, que segurou politicamente o barco enquanto a justiça decidia o futuro eleitoral de Marine, ficou enfurecido. Bardella foi literalmente o penico, jogado  janela fora. O mancebo fascista esqueceu o velho adágio: às vezes o nosso maior inimigo não está do lado de fora, está sentado ao lado e já começou a contar quantos cadeiras faltam para chegar ao trono.

As lutas intestinas também estão a acontecer no partido de extrema-direita português. Depois da ascensão, a queda? Assistiu-se no Verão às lutas sôfregas pelo poder dentro daquele partido que pode vir assim a implodir. Pouf! Temos pena! (Não, a sério, não temos!)

Extrema-direita vença na Alemanha, mas está isolada

Na Alemanha, o partido de extrema-direita AFD obteve uma vitória histórica nas eleições do estado da Saxónia-Anhalt, conquistou quase 44% dos votos, o seu melhor resultado de sempre naquele contexto eleitoral. O resultado foi impulsionado pela insatisfação de parte dos eleitores com as políticas de imigração e com a situação económica alemã. O chanceler Friedrich Merz classificou o resultado como um sismo na política alemã e manifestou preocupação. No entanto, a AFD não alcançou a maioria absoluta e enfrenta agora o isolamento dos partidos tradicionais para formar governo naquele estado.

É a primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial que uma força política nacionalista consegue uma votação tão expressiva num estado alemão. A AFD rejeita ser qualificado de partido nazi e procura distanciar-se desse rótulo, num país cuja Constituição prevê mecanismos de proteção da ordem democrática e proíbe organizações e partidos de cariz nazi.

O crescimento eleitoral da extrema-direita alemã é um sinal das fraturas sociais, económicas e políticas existentes na Alemanha. Quando os salários não acompanham os preços, quando a habitação se torna inacessível e quando as pessoas sentem que as instituições não respondem aos seus problemas, abre-se espaço para os partidos de extrema-direita, peritos em prometer soluções simples para problemas complexos. 

Devia servir-nos de alerta no Luxemburgo? É, eu acho que devia. É sempre mais fácil apontar o dedo ao vizinho estrangeiro do que explicar porque é que os alugueres aumentaram 30%. E é precisamente aí que a esquerda progressista e sindical deve estar: a discutir as causas reais dos problemas, em vez de deixar o descontentamento ser transformado em combustível político contra os mais vulneráveis.

Planeta em brasa

O Verão de 2026 foi o mais quente de sempre à escala mundial desde o início dos registos instrumentais, no final do século XIX. Na Europa, foi ainda mais quente do que o Verão de 2003. Em Portugal, o Verão ficou marcado por sucessivas ondas de calor que provocaram quase 700 mortes. Em França, foram 8 mil as mortes associadas ao calor. No Luxemburgo, foram cerca de 50 mortes, sobretudo entre pessoas idosas, depois de cinco vagas de calor praticamente consecutivas.

A ministra da Saúde luxemburguesa, Martine Deprez, reconheceu no Parlamento que as infraestruturas do país precisam de ser adaptadas para responder melhor a episódios prolongados de canícula.

Ora, não é propriamente uma descoberta revolucionária. Há anos que os cientistas dizem que as alterações climáticas vão afetar as nossas regiões e que as canículas vão aumentar em cadência e intensidade.

Se as escolas têm temperaturas que parecem de estufa tropical, talvez seja mesmo altura de parar de esperar que o problema seja resolvido abrindo uma janela. Os sindicatos exigiram em junho precisamente que escolas e liceus sejam adaptados às novas condições climáticas. Porque se há coisa que podemos dizer com alguma certeza é esta: este Verão pode muito bem ter sido o Verão mais fresquinho dos próximos anos. E isto, infelizmente, não é uma piada. É uma questão de segurança, saúde pública e condições de trabalho.

Até porque uma pessoa quando trabalha pode aceitar muitas coisas, mas não está obrigado a transformar-se em frango assado, desculpem eu quis dizer bode expiatório, para cumprir objetivos de produtividade de um patrão pouco escrupuloso.

Quando uma sala de aula se transforma num forno, quando os trabalhadores nas obras ou aqueles que trabalham no exterior em trabalhos penosos têm de continuar a trabalhar sob temperaturas extremas ou quando os idosos ficam expostos ao calor sem condições adequadas, falar de alterações climáticas deixa de ser conversa de conferência internacional. Passa a ser uma questão real e é preciso rapidamente proteger toda a população. Para o ano há mais, por isso temos de começar a agir agora.

José Luís Correia

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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