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“Se toda a gente usa o ChatGPT… voltamos ao nada, à banalidade”

© DR

A capacidade de geração de matéria criativa por algoritmos e outros sistemas de inteligência artificial, como o ChatGPT, vai obrigar os humanos a “avaliar o que é bom”, algo mais raro até aqui, defendeu o especialista Todd Lubart.

Em entrevista à Lusa, à margem do 14.º Simpósio “Aquém e Além da Mente”, da Fundação Bial, o professor de psicologia da Universidade de Paris Cité considera que a inteligência artificial (IA) tem uma capacidade de produção inigualável, mas que se alimenta do que já foi criado por humanos, que terão agora de decidir o que manter do que for gerado pelos sistemas.

“Como estes sistemas são muito bons a gerar, o que têm provocado é que passamos a ter de tomar uma decisão sobre o que é bom. Avaliar. Não o fazíamos muito, porque não conseguíamos gerar assim tanto. É preciso gerar, mas também decidir o que manter”, explica.

Assim, a diferença reside na quantidade, porque se um humano “produz três ideias e decide qual delas é a menos estúpida”, uma ferramenta como o ChatGPT “produz 100 num milissegundo”, obrigando a essa avaliação.

“Se toda a gente usa o ChatGPT, toda a gente está a ‘chupar’ a mesma coisa. Voltamos ao nada, à banalidade. Quanto mais o usam, mais baixa o seu poder criativo. Num estudo recente, alimentaram o ChatGPT com a sua própria produção, o que lhe provocou um tipo de doença das vacas loucas”, explicou.

De resto, a apresentação de Lubart no simpósio, a de abertura na quarta-feira, permitiu-lhe apresentar um dos estudos que levou a cabo, em que duas versões da plataforma ChatGPT, a que se tem dedicado quase exclusivamente desde o lançamento, fazem um teste desenvolvido por si, uma avaliação do potencial criativo.

Ao lado dos 100 testes realizados na ‘máquina’, foram entregues as mesmas tarefas a crianças de 12 anos em França, com o ChatGPT acima da média humana no capítulo de divergência e igual à média no integrativo, relacionado com a escrita de histórias.

É por essas conclusões que diz que “de momento não há risco de os humanos serem substituídos”, ainda que tenha acabado a palestra com uma nota bem humorada: “para os robôs e a IA, eu não me oponho a que criem”.

“Os sistemas atuais foram treinados com toda a Internet. Ora, quem é que pôs tudo na Internet? Nós, humanos. Parece impressionante [a capacidade destes sistemas], mas depois um miúdo de 12 anos conta uma história tão boa quanto ele, que ‘comeu’ toda a Internet”, remata.

Estes resultados dececionantes para a IA foram contrapostos com exemplos como o do robô Shimon, que improvisa no xilofone em conjunto com músicos de ‘jazz’, dando concertos pelo mundo, ou a pintora de retratos Ai-da, sistemas “sem cérebro prototipal e a produzir valor”.

Sobre a criatividade, defendeu uma abordagem contextualizada e que se estende para lá da necessidade única de um cérebro humano, sendo “por natureza contextualizada” e a acontecer “numa interface”.

“Se um cometa acertar na Terra e numa pedra, tornando-a um objeto artístico. Não diríamos que é criativo, não há processo, nenhum produtor ou agente. Bem, a Natureza, poderia dizer-se, criou isso. Seria darwiniano. Se tens um macaquinho que acerta em carateres à toa e eventualmente escreve um soneto de Shakespeare, o processo não funciona. Mas se tiras a plateia, não há um sistema de valor. Mas tu és a tua própria plateia…”, exemplifica.

É por essa razão, comentou ainda, que “alguém que não é reconhecido em vida é, depois, aclamado por ter escrito um grande romance há 100 anos, porque a ideia chegou a um público, e foi aí que se deu a criatividade”.

Os humanos, enquanto “criaturas de hábitos”, passam de resto por um “deslizar fundamental para não fazer nada e preguiçar”, pelo baixo esforço e a conservação de energia, e vivem “a maior parte da vida a repetir o que já se sabe fazer”.

“Para ser criativo, é preciso romper com a rotina, exige mais energia. Se vamos morrer, queremos logo fazer o esforço e encontrar uma solução. Mas antes…”, brincou.

Todd Lubart é professor de psicologia na Universidade Paris Cité e editor de vários jornais académicos ligados ao tema da criatividade, tendo recebido vários prémios e presidindo, atualmente, à Sociedade Internacional para o Estudo da Criatividade e Inovação.

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