Robert Pires regressa esta terça-feira, 6 de outubro, ao estádio Saint-Symphorien, em Metz, para um jogo de homenagem, dez anos depois de ter colocado um ponto final na carreira profissional. O antigo internacional francês, campeão do mundo em 1998 e da Europa em 2000, escolheu precisamente o clube onde se afirmou como profissional para reunir algumas das grandes figuras que marcaram o seu percurso no futebol.
O evento, que começa às 21h00 (hora local), será uma festa do futebol e contará com três equipas, representando as principais etapas da carreira de Pires: as lendas do FC Metz, as lendas do Arsenal e uma equipa All Stars. O próprio Robert Pires participará nos três períodos de 30 minutos previstos para a noite.
Entre os nomes já confirmados encontram-se antigos companheiros e adversários de diferentes fases da carreira. Arsène Wenger orientará a equipa do Arsenal, Joël Muller estará no banco do FC Metz e Aimé Jacquet comandará a equipa All Stars. Entre os jogadores anunciados estão Thierry Henry, Patrick Vieira, Laurent Blanc, Lilian Thuram, Marcel Desailly, Samuel Umtiti, Samir Nasri, Laurent Koscielny, Nicklas Bendtner, Sylvain Wiltord, Franck Ribéry, Didier Drogba, Samuel Eto’o, Emmanuel Adebayor, Miralem Pjanic e Mamadou Niang, entre outros. A organização mantém ainda alguns nomes em segredo.
Uma das grandes interrogações dos últimos meses era a eventual presença de Zinedine Zidane. Pires tinha revelado que faria tudo para convencer o antigo companheiro da seleção francesa e campeão do mundo de 1998 a participar na festa. No entanto, à medida que o evento se aproxima, Zidane surge entre os grandes ausentes, juntamente com Didier Deschamps.
A escolha de Metz não é casual. Pires chegou ao FC Metz em 1992, aos 18 anos, depois de uma passagem pela formação do Stade de Reims, e permaneceu no clube até 1998. Pelos Grenats disputou 198 jogos e marcou 48 golos em todas as competições. Foi em Metz que assinou o seu primeiro contrato profissional e onde começou a construir a carreira que o levaria depois ao Olympique de Marseille, Arsenal, Villarreal e à seleção francesa.
Foi também com o FC Metz que conquistou a Taça da Liga francesa em 1996. Dois anos depois, deixou o clube para ingressar no Marselha, depois de ter sido vice-campeão francês com Metz em 1998.
A partir daí, a carreira ganhou dimensão internacional. Com a França, Pires somou 79 internacionalizações e 14 golos, conquistando o Campeonato do Mundo de 1998 e o Campeonato da Europa de 2000. No Arsenal, onde jogou entre 2000 e 2006, venceu duas vezes a Premier League e integrou a equipa dos “Invencíveis”, que terminou a época 2003/04 sem perder um único jogo no campeonato inglês.
O próprio Pires explicou que a formação recebida em Metz foi determinante para o sucesso posterior. “Se cheguei onde cheguei, é graças ao FC Metz”, afirmou quando anunciou o evento, recordando Carlo Molinari, então presidente do clube, e Francis De Taddeo, responsável pelo centro de formação, como duas das pessoas que acreditaram nele desde o início.
Para a comunidade portuguesa, Robert Pires tem, porém, uma dimensão adicional. Nascido em Reims, em 1973, é filho de Antonio Pires, português oriundo da região de Braga, que emigrou para França na década de 1970. A mãe de Robert é espanhola.
A ligação a Portugal sempre esteve presente na vida do antigo futebolista. Em entrevistas, Pires contou que passava as férias de infância na terra do pai e que ainda tem família em Portugal, nomeadamente na região de Lisboa e perto de Braga. Fala português e nunca escondeu a sua ligação afetiva ao país.
Essa ligação chegou mesmo a cruzar-se com a sua carreira profissional. Pires revelou que teve por duas vezes a possibilidade de representar o Benfica. A primeira aconteceu quando tinha cerca de 20 anos e jogava no Metz, mas decidiu permanecer em França. Anos mais tarde, quando estava no Villarreal, voltou a existir uma possibilidade de transferência para a Luz, mas acabou por renovar pelo clube espanhol. O antigo jogador reconheceu que o pai, grande benfiquista, ficou particularmente desapontado.
A seleção portuguesa também chegou a ser uma possibilidade. Pires optou, contudo, por representar a França, país onde nasceu e onde fez toda a sua formação futebolística. A decisão ganhou um significado especial no Euro 2000, quando França e Portugal se defrontaram nas meias-finais. Pires estava do lado francês; do outro encontrava-se a seleção do país do seu pai. A França venceu por 2-1, com o célebre penálti de Zidane no prolongamento.
“Uma vez que tinha a camisola da seleção francesa vestida, tinha de fazer tudo para vencer Portugal”, explicou Pires anos mais tarde à Federação Francesa de Futebol, recordando também como aquele jogo foi particularmente difícil para o seu pai.
A homenagem pretende ser mais do que um simples jogo de antigas estrelas. Pires quis reunir jogadores, treinadores e amigos que acompanharam as diferentes fases da sua carreira, num formato pouco habitual de três equipas e três períodos de 30 minutos.
A organização espera cerca de uma centena de antigos companheiros, treinadores e pessoas próximas do jogador. A transmissão televisiva será assegurada pelo Canal+ Foot, com uma emissão especial entre as 20h00 e a meia-noite.
A noite terá também uma componente solidária, com destaque para duas associações: “L’Exceptionnelle Mia”, que apoia uma jovem de Moselle com uma doença genética rara, e o Institut de Myologie, dedicado à investigação sobre doenças musculares, incluindo a doença de Charcot.
O FC Metz, que em junho nomeou Pires “Grande Embaixador” do clube, pretende ainda aproveitar a sua experiência para trabalhar com os jovens da academia e do centro de formação. É uma forma de prolongar a relação entre o antigo jogador e o clube que lhe abriu as portas do futebol profissional.
Aos 52 anos, Robert Pires regressa, assim, ao estádio onde tudo começou. Um regresso a Metz, mas também uma celebração de uma trajetória singular: a de um filho de emigrante português que nasceu em França, escolheu vestir a camisola dos Bleus e acabou por conquistar o mundo, sem nunca perder a ligação às suas raízes portuguesas.