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Quando eu partir

O dia 6 de Outubro do ano de 2017 foi um dia trágico para o meu bom amigo Martins (Quim Luís). A morte veio encontrá-lo cedo de mais. Levou-o. Connosco ficou a saudade inconsolável da sua companhia, da sua amizade. Dedico-lhe este poema.

 

E quando eu me for,
Quem vai proferir as minhas palavras?
Quem suportará a minha dor,
Quem da minha dor,
Com persistência, com ardor
Cuidará das minhas lavras?
Quem percorrerá os caminhos
Que me faltam fazer?
Quem, depois de eu morrer,
Dirá tudo o que me falta dizer?
Quem irá abraçar o mundo
Com esta mesma ânsia, esta vontade,
E num silêncio mudo, profundo
Tão profundo como a verdade
Que em meu peito não consigo guardar,
Pegará na minha voz,
Para, com a minha voz gritar…?
E o mundo…vai parar de girar
Porque eu morri?
Vai cair sobre si mesmo,
Vai-se desmoronar
Como se fosse esse o seu destino
Desde o dia em que nasci?
O vento, deixa de soprar?
A água que corre no rio, escoa,
E o rio vai secar?
As manhãs serão serenas
No bico do pássaro que a música entoa,
No seu melancólico despertar?
E a brisa que vem do mar,
Essa brisa que absorvo dentro de mim,
E me faz viver, e me faz acreditar,
E me transporta por outros caminhos sem fim,
Outros mundos, outras vidas
Que essa brisa me faz sonhar.
Essa brisa irá por cá ficar?
Como ficará o mundo quando eu morrer?
Corre a cortina porque a peça terminou?
Apaga as luzes depois do público desaparecer,
Vai-se embora porque já cá não estou?
Vou-me embora e o mundo nem pestaneja,
Os dias morrem ao anoitecer,
E onde quer que eu vá, onde quer que esteja
Nascem de novo ao amanhecer.
E afinal, não passo de um sopro largado no tempo,
Vivo e quando vivo é esse o meu momento.
Estou…e deixo de estar,
E o mundo move-se, e o mundo gira,
E o mundo não vai acabar,
Porque do mundo a minha pessoa se retira.
O mundo não tem fim,
Mas tem a minha vida, o meu legado.
E ainda bem que é assim,
Pois se a minha vida não tivesse fim,
Estaria o mundo condenado.

António Magalhães
(Possivelmente Poemas)