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Ana da Silva leva as raízes açorianas à Paris Fashion Week

© DR

Natural da ilha do Faial e a viver no Reino Unido há mais de 10 anos, a designer Ana da Silva apresentou, a 7 de outubro, a coleção “Her/itage: Her Written Roots”, no Hôtel Le Marois, em Paris, no âmbito da Paris Fashion Week. De caráter profundamente pessoal, a coleção cruza moda, arte, memória e identidade, dando forma a uma narrativa contemporânea inspirada na herança transmitida por várias gerações de mulheres.

“Esta coleção é um projeto profundamente pessoal, inspirado nas mulheres da minha família – a minha bisavó, a minha avó e a minha mãe -, todas costureiras e artesãs, cujo talento e criatividade marcaram o meu percurso e a minha identidade enquanto designer”, explica na nota enviada ao BOM DIA.

Através desta coleção, Ana da Silva homenageia estas mulheres, que viveram em gerações nas quais nem sempre existia a liberdade de transformar a criatividade numa carreira profissional: “É uma celebração do seu legado, mas também da liberdade e das oportunidades que a minha geração teve a possibilidade de conquistar”.

“Hoje, tenho a liberdade de fazer aquilo que elas não puderam, e sinto que, de certa forma, os seus sonhos continuam vivos através do meu trabalho”, menciona Ana da Silva, diretora criativa da marca Anna Margarette (desenvolvida no Reino Unido).

As raízes açorianas

Um dos elementos mais significativos da coleção é a presença do património artesanal dos Açores, nomeadamente através da incorporação do tradicional bordado a palha sobre tule, originário da ilha do Faial, uma técnica artesanal rara e distintiva da identidade cultural açoriana. “Foi particularmente importante para mim levar esta tradição açoriana até Paris, valorizando o nosso património cultural e demonstrando como o artesanato tradicional pode ganhar uma nova expressão na moda contemporânea”, explica a designer de moda.

A presença deste bordado representa não apenas uma ligação às suas origens, mas também a importância de preservar técnicas artesanais e saberes tradicionais, demonstrando que o património cultural pode encontrar novas formas de expressão na moda contemporânea.

As marcas do surrealismo

Para além da dimensão autobiográfica, a coleção inspira-se no surrealismo, movimento artístico que permite à designer explorar temas como a memória, os sonhos, a identidade e a criatividade herdada.

Os olhos evocam o olhar, a sabedoria e a visão criativa que passam de geração em geração. Os pássaros representam a liberdade que muitas mulheres do passado não puderam viver plenamente, mas que hoje pode ser abraçada pelas gerações mais novas. Os elementos que remetem para uma gaiola simbolizam as barreiras invisíveis que limitaram a vida dessas mulheres, enquanto o contraste entre formas simétricas e assimétricas reflete a complexidade da memória, da herança e da identidade. Cada peça representa uma parte de um puzzle coletivo, em que o contributo de diferentes gerações se entrelaça para dar forma a uma identidade singular.

Um diálogo entre a memória e o futuro

Mais do que uma coleção de moda, “Her/itage: Her Written Roots” é uma reflexão sobre a liberdade feminina, a transmissão de conhecimentos e a quebra de ciclos geracionais.

Ao apresentar esta narrativa em Paris, Ana da Silva transforma memórias familiares e tradições açorianas numa expressão artística contemporânea, criando uma ligação entre o passado e o futuro.

“A criatividade destas mulheres nunca desapareceu. Simplesmente encontrou uma nova voz através de mim. Esta coleção é a minha forma de continuar o seu legado, de honrar as minhas raízes e de transformar aquilo que herdei em algo que pertence ao futuro.”, conclui a designer.

Recorde agora a entrevista que a designer açoriana deu ao BOM DIA.

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