Há uma Doença terrível que se propaga pela Humanidade e para a qual é preciso alertar para que se comece, desde já, a máxima prevenção possível. Esta Doença não é nova, já ceifou milhares de vidas em épocas passadas e agora ressurge com novas estirpes.
Fase 1: Diagnóstico e propagação
Como se desenvolve e propaga essa Doença? Os sintomas explicam-se em poucas palavras. Trata-se de uma Doença autoimune induzida. Por uma falha de “reconhecimento”, o sistema imunitário perde a capacidade de distinguir o que é do próprio corpo do que são organismos invasores externos, como um vírus ou uma bactéria, e passa a produzir anticorpos que atacam o próprio corpo. Em pouco tempo, a Doença pode inflamar e destruir os rins, os pulmões, o coração, a pele e até o cérebro.
Noutros casos, a patologia começa por atacar primeiro o cérebro e depois disso espalha-se ao resto do organismo. Neste caso, a Doença autoimune severa induz o cérebro em erro e leva-o rapidamente a uma falência multiorgânica, em que o sistema de defesa do corpo destrói as suas próprias células vitais em nome de uma falsa promessa de atingir um nível elevado de extrema pureza sanitária, ou “estado de saúde utópico”. Isto porque o cérebro entra num delírio paranoico obsessivo, hipocondríaco, mórbido e passa a silenciar todos os outros órgãos, mesmo quando estes se puserem a dar alertas. O cérebro exige obediência absoluta e convence o resto do corpo humano de que está sob ataque constante de ameaças externas. Depois passa a um grau de obsessão mais elevado, reage a alertas de ameaças internas do corpo, o que justifica a autodestruição de tecidos saudáveis para “salvar” o organismo.
O sistema imunitário torna-se hiperativo e vira-se contra o próprio corpo. Em vez de proteger o organismo de ameaças reais, o sistema imunitário passa a atacar as células normais que considera “corpos estranhos” ou “degenerados”. A energia do corpo é assim gasta a policiar-se a si próprio. Em consequência, o sistema circulatório e respiratório entra em rutura e ocorre uma asfixia progressiva e necrose por falta de oxigénio.
O fechamento do corpo a tudo o que é externo, incluindo alimentos e água, corta o fluxo de nutrientes essenciais à sobrevivência do organismo. O sangue deixa de circular livremente, circulando apenas para alimentar o cérebro e o sistema imunitário hipertrofiado. As extremidades desenvolvem necroses, deixam de poder dobrar, mexer-se e acabam por apodrecer.
O esqueleto e os músculos desenvolvem um estado de osteoporose acelerada severa, embora ainda camuflada por um calaboiço externo rígido. A estrutura que é suposta dar flexibilidade, movimento e equilíbrio ao corpo humano é corroída e fundida numa estrutura rígida e inflexível. O corpo perde a capacidade de se adaptar à mudança; se tentar dobrar-se, parte-se.
Se nesta fase avançada da Doença, o corpo ainda resistir, ocorre algo a um nível ainda mais profundo, ao nível do ADN gera-se uma mutação genética forçada, em que o corpo vai tentar clonar e replicar apenas um tipo de célula “perfeita”, rejeitando a diversidade genética que garante a imunidade e a sobrevivência do organismo a longo prazo. O envelhecimento precoce e a exaustão física tomam conta do organismo devido ao esforço contínuo de simular uma força e juventude que já não existem. O corpo morre aos poucos ressequido, atrofiado, moribundo, desidratado, exangue. E acaba por dissolver-se em pó. É uma Doença terrível.
Nota intercalar ao leitor (ou: Chegaram a meio do texto): Atenção, esta Doença não é uma bactéria extraterrestre. Escolhi tomar o exemplo de várias doenças autoimunes sistémicas que realmente existem, juntei-as num cocktail intragável para levar o leitor até ao próximo passo deste texto.
Fase 2: O isolamento hipocondríaco agressivo
Este tipo de Doença pode atacar mais do que simplesmente o corpo humano. Recuemos a lente do microscópio e troquemos o jargão científico por palavras que todos possam compreender.
Onde se lê “corpo” deve ler-se “país”. Onde se lê “cérebro” deve ler-se “o Estado e a ideologia partidária”. Onde se lê sobre o “silenciamento” dos outros órgãos do corpo humano seguindo cegamente ao cérebro, deve ler-se “censura”. O “sistema Imunitário” é a polícia e as forças de segurança. Quando o sistema imunitário se torna “hiperativo e se vira contra o próprio corpo”, em vez de o proteger de ameaças reais, deve compreender-se “o Estado contra os cidadãos, dissidentes e minorias” (autoimunidade).
O sistema circulatório e respiratório são a economia e a cultura, que permitem ao país respirar, crescer, desenvolver-se. O corpo a fechar-se a tudo o que é externo, como acontece num sistema autoimune, equivale ao encerramento das fronteiras e ao isolamento cultural e económico de uma nação. A economia e o conhecimento – o sangue – deixa de circular livremente. Quando o corpo atrofia isso equivale ao empobrecimento da população. O esqueleto e os músculos são as Instituições democráticas, se não funcionam o país sofre de osteoporose. As instituições que permitem ao país mexer-se são os tribunais independentes, o parlamento e a imprensa livre.
O ADN é a origem e, simultaneamente, o futuro e os jovens de um país. Quando um país tenta produzir e reproduzir apenas um tipo de cidadão “perfeito”, rejeitando a diversidade cultural que garante o enriquecimento e a sobrevivência a longo prazo, surge um envelhecimento precoce e uma demografia baixa, que levam a nação à exaustão, devido aos esforços contínuos de simular uma força e uma juventude que já não existem para garantir um futuro.
Metáfora biológica
Diagnóstico: Esta Doença, que pode atacar um país, bem como o cidadão mais desprevenido, chama-se Fascismo.
O Fascismo faz parte de um ecossistema mais vasto a que chamamos extrema-direita. Ecossistema que inclui estirpes como o ultranacionalismo, o fundamentalismo religioso ou o populismo autoritário.
O recurso à metáfora biológica é propositado, à semelhança de como o nazismo e o fascismo usaram a “higiene social”, não para promover a coesão e a diversidade cultural, antes como lógica de pureza utópica para justificar o extermínio dos seus opositores. O veneno aplicado a quem o destilou.
José Luís Correia
