A Direita critica greve à sexta sem olhar o que se faz na Assembleia da República à segunda
A Função Pública esteve esta sexta-feira em greve. Uma greve de 24 horas, que abrange cerca de 350 mil trabalhadores das carreiras gerais da Administração Pública e tem como reivindicações salários e condições de trabalho.
Mas, para o Chega e sectores da direita, o problema está no dia da semana. Critica-se uma greve à sexta-feira como se, por ficar encostada ao fim de semana, fosse menos legítima.
Se vamos avaliar a legitimidade do trabalho pelo calendário, convém olhar também para o calendário de quem faz essa crítica.
Na Assembleia da República, a segunda-feira é, por regra, reservada ao “contacto dos deputados com os eleitores”. Por norma não há actividade na Assembleia da República. Se uma greve à sexta-feira é suspeita por anteceder o fim de semana, então por que razão não merece a mesma desconfiança a segunda-feira no Parlamento?
É uma questão de coerência. Uma greve só produz efeito se afectar a actividade laboral, se importunar a sociedade. É essa a sua natureza. Não é intelectualmente sério transformar o dia da semana num argumento contra o direito à greve.
A direita, do Chega à direita tradicional, incluindo a AD quando adopta este discurso, deveria explicar qual é exactamente o problema de uma greve ser à sexta-feira. O trabalhador deixa de ter problemas salariais porque é sexta-feira? As condições de trabalho melhoram se for quinta-feira? O salário aumenta se a greve for à terça?
O dia da semana não responde a nenhuma destas perguntas. É altura de deixar o calendário e discutir o que realmente interessa: por que razão estão os trabalhadores da Função Pública em greve, o que reivindicam e que resposta lhes está a dar o Governo. Falar da sexta-feira é muito conveniente quando não se quer falar dos salários, das condições de trabalho e das políticas públicas.
E, se essa crítica vem de um partido como o Chega, que se apresenta tantas vezes como porta-voz da indignação contra os privilégios dos outros, fica a pergunta: a indignação é contra o dia da greve ou contra o próprio direito dos trabalhadores de fazerem greve?
Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).
