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Vai ficar tudo bem… Vai mesmo?

Uma pandemia não é algo de novo neste planeta terra, a nossa casa. Mas para quase todos nós foi como que se tivéssemos sido apanhados de surpresa, com uma tragédia que até então era apenas uma assombração que pertencia a um passado que nenhum de nós jamais viveu, apenas teve conhecimento através dos livros e registos da história.

Uma coisa é ler sobre uma tragédia que atinge a humanidade de tal maneira que as mazelas que nela deixa são tão profundas ao ponto de mudar por completo o curso e o futuro dessa mesma humanidade, dando aso a um novo e totalmente diferente sentido à vida como até então se conhecia, sabendo apesar de tudo, através dos registos que da tragédia contam a sua história, o rumo que a mesma tomou, e outra coisa é viver uma desgraça da qual não se sabe muito bem, apenas se especula, as transformações profundas que a mesma provocará à medida que se vai desenvolvendo.

De qualquer maneira, sabemos que há nesta pandemia certos factos e certas palavras, ou até mesmo frases, que a ela irão ficar associada, que de certa maneira ao serem recordados ou apenas mencionados, saber-se-á de antemão que se fala da pandemia do covid 19. Palavras que não sendo novas, nunca antes haviam tido tanto uso como no tempo da pandemia.

Como exemplo podemos mencionar “confinamento”, “isolamento”, “desinfeção”, “distanciamento social” etc. etc.

Quando nos parece que perdemos tudo, que o mundo se nos foge debaixo dos pés, não deixando solo onde nos possamos apoiar para que continuemos a nossa jornada, parece-nos que a única coisa a que nos podemos agarrar para continuar o caminho das trevas até encontrarmos a luz que nos devolverá à vida, é não perder a esperança. E nessa perspetiva surgiu uma outra frase que pertence também ao grupo das frases e palavras que definem a pandemia atual. “Vai ficar tudo bem.”

Mas…vai mesmo? E vai ficar tudo bem para quem?

Mais de nove milhões de casos confirmados com a infeção do covid 19, e os números a cada dia vão aumentando sempre, meio milhão de mortos como resultado do vírus, muitas outras mortes por outras doenças que devido à pandemia não foram devidamente tratadas, outras negligenciadas, adiadas, por vezes esquecidas. E isto não é sequer uma critica aos serviços nacionais de saúde, que apesar de tudo fazem o seu melhor, mas como diria o grande Mestre José Saramago em Ensaio sobre a Cegueira, “Tenha calma, disse o médico, numa epidemia não há culpados, todos são vítimas.”
Vai ficar tudo bem…diz-nos a esperança à qual com uma certa ansiedade, por vezes medo, nos agarramos.

Milhares de negócios arruinados, milhões de desempregados em todo o planeta, as economias pelas ruas da amargura, mais pobreza, mais miséria, mais crime e insegurança.

Projetos e sonhos adiados.

Famílias e amigos separados, distanciados. Famílias desfeitas, violência doméstica, e tudo o mais que os telhados encobrem.

Direitos e liberdades condicionados, reprimidos.

Vai ficar tudo bem…

Claro que vai ficar tudo bem. Por muito mórbida a frase que se segue possa soar, não deixa apesar de tudo de ser um facto. “Entre mortos e feridos há de haver sempre alguém que se safa…

Vai ficar tudo bem…

Claro que vai ficar tudo bem…, mas… para quem…?

António Magalhães

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.