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Tuxa há cinco anos

Quis o destino ou calhou-me em sorte que com dois mesitos me veio parar às mãos – oferecida – uma pequenina cadelita com um passado retumbante.

Havia sido resgatada em muito mau estado e estava a ser tratada.

Havia muito tempo que eu queria uma cadelita mas ciente dos cuidados que requeria, eu vinha protelando. Também porque houvera tido memórias desagradáveis com outros animais – que ao tempo não eram animais verdadeiramente domésticos, porque não acessavam ao interior da casa.

Pelos meus doze anos, no dia de velório do corpo do meu pai, um dos meus irmãos ofereceu-me o Skipe, um pequenino cão pretinho. Depois tive a Likas, também preta, que teve um “desaparecimento” idêntico ao do Skipe: o “desaparecimento” espontâneo.

Isto – só por si – dava um romance, como ousamos dizer quando temos uma história longa para contar, ou, como no meu caso, não quero recordar.

Pelo São Pedro de 2015, pouco convencido, veio-me parar às mãos uma pequena canina. – Pouco convencido porque disse a alguém periclitantemente que queria um animal. Até que um dia me falaram neste pequeno animal. Noutro dia trouxeram-me para tomar contacto com o animal durante uma ou duas horas, porque ainda andava em tratamento. Pese ser São Pedro – quente, o animal vinha numa alcofinha toda coberta por um pano.

Levanto um pouco o pano e logo uns olhitos que sou incapaz de definir, emergiram dum pêlo preto que se me infiltraram pelos meus olhos adentro.

Estou convencido que os meus olhos também terão sido tomados pelo pequenino animal.

Assim que vejo os olhos que me olhavam, brilhantes e fundos e tristes, ainda sem saber o estado em que a meia bolinha preta (meia, porque muito pequenina, ainda não a vira logo toda), logo ficara gravado que a canina era minha e eu dela (n)um entrosamento indizível. Ou seja: na minha cinzenta massa ficou registado que o animal já não saía da minha posse. Explique-se: já daqui não sai. E não.

Concretize-se: levantado o pano e cruzados os nossos olhos, vendo apenas a cabecita ficou prometido a mim mesmo que jamais saía da minha mão e da minha vida.

Temendo dar-lhe mais sofrimento fez com que eu não incutisse regras para não estafar mais o seu sofrimento. Crendo eu que o conseguia mais tarde.

Passámos a fazer parte de cada um de nós.

Claro que se iniciou um quotidiano complicado.
Eu quisera especialmente uma cadela porque tinha ideia que seria mais meiguinha, mais predisposta a “melices”, dar e receber mimos como colo e afagos. Verdade.

Havia de ser esterelizada, quando o veterinário me diz que se tornaria mais mimalha. Perfeito.

O veterinário viria a presumir que teria dois meses. Logo aventamos que ficaria registada na data do 25 de Abril, que nos fez simultaneamente progredir que era democrata.

E era. E é tudo. Ao longo dos anos – sem ser eufemismo – temos rido e chorado os dois.

Os nosso amplexos são realmente verdadeiros. Quando ocorre ao meu colo, seja entre mim e o computador, ou quando estou ao telefone ela ruminando entre os meus braços forma, ainda que por vezes unilateralmente, um verdadeiro amplexo. As práticas enlaçam-me o meu peito e mesmo o pescoço .

Ela, unilateralmente, não chora. Nunca. É tola. Se e quando eu saio, meia hora antes fica desconfiada. Na hora de sair fica a tremer num dó que me faz dó. Quando chego, a milhas, já está a emitir diversos ladrares e me recebe de patas dianteiras no ar. A louvaminhar o meu regresso .

Incrível: Damos, apenas precisamos de alimentar um pequeno canin, e ele dá-nos tanto, tanto, que não sei definir.

Os choros, as tristezas são partilhadas de maneira tal – que só não lhe oiço a voz! Mas ela sabe comunicar comigo ainda melhor.
Os nossos diálogos podem durar vinte e seis horas por dia porque as duas restantes ainda são para mimo.

Esta coisa preta com patinhas brancas que parecem meias chegou há cinco anos a minha casa, olhei-a e os nossos olhos se nos fulminaram. Ficou jurado entre nós que jamais nos separaraimos.

Era São Pedro. Teria nascido em Abril – por volta de 25.

Isto foi assim: não consigo descrever os nossos diálogos.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)

 

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