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Quem (e por que vias) quer envergonhar-me?

Uma das caraterísticas da nossa época, filha talvez da influência galopante dos meios de comunicação social, é a fugacidade com que nascem «casos» e «escândalos» aos quais se dá de início importância não raro desmesurada, para rapidamente caírem nas cinzas do enfado.

O caso sobre o qual vou discorrer é desses: embora ainda fresco na memória coletiva, já poucos querem (ou ousam) falar dele, quiçá porque politicamente embaraçoso. Todavia, as suas implicações transcendem fronteiras cronológicas.

Comecemos pelo início:

No passado dia 20 de janeiro, alguém alertou a Polícia de Segurança Pública para uma refrega entre duas mulheres no chamado «bairro da Jamaica», zona residencial do Seixal, degradada, semiclandestina e maioritariamente negra.

Mal os agentes chegaram ao local, um deles foi violentamente agredido com um pedregulho na face, do que viria a ter de receber tratamento hospitalar. De imediato, vários habitantes do bairro, incluindo uma das protagonistas da refrega, começaram a lançar pedradas aos policiais. A situação degradou-se rapidamente, com uma reação inevitavelmente musculada da PSP e detenções.

Recorrendo a uma tática que, infelizmente, dá frutos no que toca a moldar certas cabeças tidas por bem-pensantes, a turba que começara o mal depressa passou à caramunha. E vá de gritarem que a polícia é racista e que a polícia os agredira brutalmente.

Um tal Mamadou Ba, senegalês que dirige a organização SOS Racismo e presta consultoria ao Bloco de Esquerda, insulta a PSP, chamando-lhe «a bosta da bófia».

Seguem-se, no centro de Lisboa, manifestações, mais ou menos agitadas, de supostas vítimas da violência policial.

As embaixadas de Cabo Verde e de Angola (com destaque para esta última) interpelam o governo português, pedindo satisfações sobre os maus tratos que teriam visado cidadãos seus.

Nas vésperas da recente visita do presidente da República Portuguesa a Angola, o ministro dos Negócios Estrangeiros angolano divulgou, urbi et orbi, que o seu homólogo português «pedira desculpa» pelos incidentes de janeiro no Seixal. Este pormenor é, porém, descartável, na medida em que o gabinete de Augusto Santos Silva se apressou a desmentir qualquer pedido de desculpas por parte de Portugal. Eu alvitraria (sublinho que se trata de uma suposição) que o MNE português, em conversa telefónica com o MNE angolano, tivesse expressado algo como «consternação» ou «pesar» pelos acontecimentos em si — o que não seria senão natural — e que a contraparte angolana tivesse agarrado essa trivialidade para transmitir a ideia de que fizera vergar o antigo colonizador. Não seria inédito.

O presidente da República Portuguesa, na teoricamente louvável intenção de apaziguar os ânimos, vai visitar o bairro da Jamaica, onde, paternalista, confraterniza com os habitantes, incluindo o que atirara o primeiro pedregulho à cara de um agente da ordem. Até selfies tira com ele.

Tal como seria de esperar, a Polícia de Segurança Pública, que atuara no estrito cumprimento da sua função de guardiã da lei e da ordem, expressa estranheza e indignação por, contrariamente a bandidos e arruaceiros, não receber qualquer gesto de solidariedade por parte do supremo magistrado da nação.

Marcelo Rebelo de Sousa defende-se, alegando que não pede o certificado de registo criminal aos cidadãos com os quais confraterniza (traduzindo: ignorava que estivera a abraçar o autor da injustificável agressão a um agente da polícia), e acrescenta que não faz discriminações entre portugueses.

Primeiro: é crível que Marcelo ignorasse que, entre os que saudava no bairro, figurava o autor do criminoso ataque à polícia. Mas, em caso algum, o seu primeiro gesto de «apaziguamento» deveria ter privilegiado os arruaceiros, ademais com total menosprezo para com os agentes da polícia, cuja atuação não excedera o razoável. De resto, Marcelo poderia ter-se posteriormente demarcado, em vez de atabalhoar desculpas que representaram uma clara fuga para a frente.

Segundo: se os arruaceiros que atacaram a polícia no bairro da Jamaica são «portugueses», por que bizarro motivo as embaixadas de Cabo Verde e de Angola se ergueram em sua defesa? Nesta história, há botas que não batem com as perdigotas.

Terceiro: se Marcelo Rebelo de Sousa não faz discriminações entre portugueses, confraternizaria também com Mário Machado, que, apesar de branco, nacionalista e «facho», não tem outra nacionalidade para além da portuguesa?

Nesta e noutras histórias idênticas, não é, obviamente, Portugal que jamais me fará sentir vergonha.

Jorge Madeira Mendes