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Quando se quebra o verniz ou os perdidos do Processo Civilizacional

Há umas quatro décadas, após a Revolução dos Cravos, muito Portugal destilou de racismo. Estávamos muito longe dos dias de hoje em que nos orgulhamos de ter dos melhores indicadores europeus sobre integração e respeito pelas minorias e migrantes. Nesses distantes anos setenta do século passado, as anedotas sobre “pretos” eram normais, sendo depois substituídas pelas dos “alentejanos”, primeiro, e depois pelas “louras”.

Nesses distantes anos setenta desse ainda mais distante século XX, foram popularmente famosos discos e artistas com músicas e anedotas que apelavam aos instintos mais básicos, fosse do tão cantado refrão “quanto mais me bates, mais gosto de ti”, ou o tão popular “Parafuso em Lisboa”, com a representação de um telefonema de um “preto” de Lisboa para um seu familiar em África.

De facto, esses longínquos anos setenta foram ontem e parte de nós ainda teve no seu dia-a-dia essas narrativas como normalidade. Foi esse o leite materno que tantos de nós bebemos, depois polido e transformado numa ligeira e bonita capa de civilidade quando, afinal, era tão fácil quebrar o verniz mal se baixassem as baias que nos mantinham num aparente processo civilizacional.

Aliás, o conceito de The Civilizing Process talhado pelo sociólogo Norbert Elias tem de ter em conta que o caminho da transformação mental e política que resulta, no século XIX, na construção do Estado Moderno como o entendemos hoje, com a passagem de uma sociedade de guerreiros para uma de direito, teve os que se perderam no caminho, os que ficaram para trás e apenas apanharam esse comboio de civilidade e da “civilização” há muito pouco tempo.

No caso português, algumas das principais marcas desse processo de afastamento de uma sociedade dos valores guerreiros para o Estado de Direto, são ainda muito ténues e estranhas a muita população que tão frequentemente vemos a preferir os discursos “viris” da justiça popular em detrimento dos tribunais – por mais que as instituições da justiçam funcionem mal, elas são o que nos permite não viver numa sociedade guerreira, de luta constante onde os equilíbrios são criados apenas pela força.

Hoje, quando nos admiramos que insultos racistas obriguem Marega a parar de jogar, temos de afirmar quais os limites que estamos dispostos a ultrapassar e quais são intransponíveis. Marega mostrou-o de forma clara. A afirmação básica e instintiva da superioridade de uns não pode ser arma de ataque numa sociedade pós-guerreira que tende para o primado do Direto e da Razão, onde o Humanismo é a norma e a Igualdade a sua ferramenta.

Não podemos mais pactuar, num silêncio ensurdecedor, com atitudes que geram o medo, o reproduzem e alimentam, e com ele nos fazem regredir séculos de avanços que nos tornaram na sociedade mais pacífica, mais próspera e mais equitativa que a História da Humanidade jamais teve.

 

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