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Porque é que o Alentejo tem poucos casos de Covid-19?

Os hábitos culturais do Alentejo, de privilegiar relações de vizinhança e na comunidade, resguardando-se daquilo que vem do exterior, aliados a fatores demográficos, podem explicar os poucos casos de Covid-19 na região, segundo uma historiadora e dois sociólogos.

Maria de Fátima Nunes, professora de História na Universidade de Évora (UÉ), argumentou à agência Lusa que o Alentejo tem “sido sempre uma região com pouca densidade populacional” e, “nos últimos anos, essa densidade ainda ficou mais ténue e débil”, com a saída de mais pessoas deste território.

Provavelmente, o reduzido número de habitantes da região, com muita população envelhecida, ajuda a compreender o facto de o Alentejo ter registado, até hoje, poucos casos (20) de doentes infetados pela pandemia de Covid-19, mas há outros dados a levar em consideração.

“Uma das explicações possíveis é que pode não ter a ver só com o facto de serem poucos habitantes. Tem a ver, se calhar, com determinado tipo de mecanismos de permanência no território”, admitiu Maria de Fátima Nunes, que é também investigadora do Instituto de História Contemporânea (IHC) – Polo de Évora.

Na região, que tem “uma paisagem enorme, sem fim”, os habitantes vivem sobretudo “num tipo de povoamento concentrado, em aglomerados que são aldeias”, ou então em vilas ou cidades de média dimensão, mas “no Alentejo não há o que acontece no norte do país, em que se trabalha de um lado para o outro e todos os dias se atravessam territórios”.

“Sob o ponto de vista de hábitos culturais no Alentejo, as pessoas são muito fechadas para dentro, não é viver nos montes, mas vive-se, de facto na comunidade há muito tempo”, argumentou.

Aludindo ao escritor Miguel Torga, que “dizia que o alentejano não emigra, não sai do seu território, é ali que resiste e inventa”, a docente vincou que, neste tipo de situações, como esta da pandemia da covid-19, a atitude dos alentejanos é a de “resistir fechando-se”.

Trata-se de “fechar a casa, de criar essa fronteira física”, não necessariamente porque a autoridade o imponha, mas por ser “uma reação interiorizada ao perigo que vem do exterior”, porque, nestas alturas, o alentejano “confia nas relações de vizinhança e volta-se para dentro de portas para resolver os desafios, quase que cria um cordão sanitário ao que é desconhecido”, frisou.

O sociólogo João Emílio Alves, docente no Instituto Politécnico de Portalegre (IPP), também aludiu a uma “certa cultura instalada” no Alentejo para explicar os poucos casos de covid-19 que ainda se registam na região.

“O comportamento, os modos de vida e uma certa cultura instalada nesta região”, tudo isso “é favorável à aceitação daquilo que são as regras e as orientações que têm sido emanadas” para a população “se resguardar”, disse.

Em termos culturais, os habitantes têm “uma postura de saber acatar e de saber, obviamente, pôr em prática essas indicações”, acrescentou o sociólogo, não descurando, igualmente, fatores demográficos como a baixa densidade demográfica, que também contribui “em parte” para esta situação.

“Não podemos esperar que o impacto deste problema, pelo menos para já, atinja os valores que observamos nas outras regiões. Há menos densidade demográfica e isso, naturalmente, acaba por promover um certo isolamento social”, sublinhou.

José Manuel Resende, sociólogo e professor catedrático da UÉ referiu o mesmo fator demográfico, acrescentando outros, por exemplo no caso de Évora, cidade onde reside e onde “há pouca atividade noturna”, com reduzido número de estabelecimentos. E onde, ao início da noite, “a maior parte das ruas estão desertas e os bares, se não estão fechados, estão a fechar”, pelo que os espaços não são inundados “de uma forma massiva”.

Na região, “as pessoas são mais reservadas”, na sua “expressão pública”, ou seja, “não quer dizer que, na sua casa, a hospitalidade não seja vibrante e que, se os contactos forem frequentes e regulares, a convivialidade” não comece “a ser notória”, mas, “no primeiro contacto, perante pessoas que não conhecem, são mais seletivos”, o que pode ser um “escudo” de proteção, alegou o sociólogo.