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Pensamento como pré-escrita

Eventualmente, poderia não ter sido assim. O caminho da história no mundo do qual somos herdeiros fez-se através da escrita. Mais que uma cultura, somos uma civilização da escrita, seja ela para exprimir emoções, para desenvolver pensamento e especulação, ou seja mesmo na dimensão da factualidade, da descrição, ou até da prova. Do mais espiritual ao mais material, tudo no nosso mundo se espraia na escrita.

Mas podia não ser assim. As culturas e as religiões africanas ou ameríndias, por exemplo, não criaram uma cultura dependente da escrita. A oralidade, tantas vezes expressa através da poesia, é a mecânica da transmissão de conhecimento, de construir pensamento, e de elaborar o mundo.

Mas nós, na forma como organizamos a leitura do mundo, definimos tradicionalmente, na palavra História, a fronteira entre o antes da escrita e o depois da escrita, como que subentendendo o antes da civilização e o depois da civilização, o antes da cultura e o depois da cultura.

E, de facto, a relação da cultura com essa técnica de passar a escrito o que é pensado ou dito, trouxe-nos revoluções quase inimagináveis, e das quais somos diretamente herdeiros e dependentes. Ao inventar a escrita ideográfica, com base num desenho, as antigas civilizações Suméria, Egípcia, do Vale do Hindu e Chinesa, tiveram de fazer um imenso trabalho de redução do conhecimento de todas as coisas, a denominadores comuns: os signos ideográficos, para poderem comunicar, têm de ser reconhecidos, têm de transmitir os aspetos gerais e universalmente aceites – o escriba egípcio não pode desenhar “a sua mesa”, por exemplo, mas tem de desenhar “mesa” que seja reconhecida por todos como “Mesa”. Às especificidades poéticas de cada indivíduo, sobrepôs-se o pragmatismo funcional de um código coletivo.
Mas a palavra não ficou prisioneira na escrita. As cosmologias encontraram na palavra a capacidade criadora. Deus diz, e a obra faz-se.

Numa junção entre pensamento e emoção, para os antigos, a língua era apenas o órgão que exteriorizava aquilo que definia o coração. A palavra era a vontade criadora, por vezes tornando-se autónoma e correspondendo quase a uma vontade própria. No início era o verbo, sem que saibamos exatamente o que quer dizer a palavra grega “Logos”, que tradicionalmente traduzidos por “verbo” e que nos remete também para uma ideia de vontade e de poder, isto é, de força criadora.

O pensamento era criador e criava. A palavra expressava-o. A escrita era consignadora.

Regis de Bray, autor que Frei Bento Domingues muito bem conhece, no seu livro, “Deus, um Itinerário”, afirma de forma provocatória que “se o homem descende do símio, Deus descende do signo”. De facto, a ideia de Deus tem uma história à qual se pode aplicar uma arqueologia de palavras e signos, que nos mostra como foi trabalhada, depurada e afinada a noção até às línguas mais próximas da nossa. Mas Deus é apenas um exemplo, o magno, dos processos de construção de sentido que encontramos em qualquer palavra ou ideia. E tal como com qualquer conceito ou categoria, o vocabulário permite-nos pensar a coisa, mas, ao mesmo tempo, enclausura a liberdade de pensamento, dentro desse léxico que tende a ser estático, fechado e rígido. É aqui que a poética nos apresenta uma porta de saída, onde a objetividade joga um papel secundário, brincando-se a seu bel-prazer com as palavras, subvertendo os seus mais comuns sentidos dicionarísticos.

A palavra ou a escrita permitem a expressão da liberdade, mas limitam-na à cosmovisão cultural em que estamos encarcerados. Será que no limite a plena liberdade de pensamento se encontra no silêncio? Ou será, mesmo, que o pensamento só poderá ser livre, se liberto do próprio eu, que já não consegue pensar, a não ser em palavras, residentes numa linguagem?

O silêncio, adivinha-se então como a possibilidade de renúncia à linguagem que nos constrange. Ou nem o silencio nos libertará da palavra com que definimos o pensamento?

(Texto lido em Serralves na abertura de um debate em Serralves)

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