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Os pássaros voam em dias de sol

16 de Julho de 2019

Querido Pai,

Tenho para mim que esta terá sido a maratona mais difícil que alguma vez realizaste. Pediram-te que corresses uma estrada a pique, com muitos socalcos. Nunca te indicaram a meta e tu, mesmo assim, nunca desististe.

Foram muitas as vezes que te olhei e que as palavras que hoje escrevo me passaram pela cabeça. Sabia que as iria escrever, mas negava-as como se tentasse camuflar uma daquelas músicas que se cola aos nossos ouvidos. Sempre que imaginava o início deste texto, os meus olhos enchiam-se de água salgada e eu pensava “não Inês, não passes isto para um papel. Esquece essas palavras, dá-lhe a mão e segue em frente com a luta porque não há tempo para derrotas nem dedicatórias tristes”. Contudo, uma parte de mim, essa que faz com que o mar bata bem forte no paredão, sabia que, mais cedo ou mais tarde, estas palavras precisariam de ser ditas.

Pai, pensar em ti é pensar em alegria, mesmo nos dias mais sombrios. Pensar em ti é ver-te de calção, Avenida de Santana dentro, com o mar como pano de fundo, a dar um treino às tuas sapatilhas. Deste-me nos olhos o oceano – que hoje se revolta dentro de mim – e soubeste-me ensinar a ser calmaria e maré agitada.

Tirada por mim, esta fotografia que hoje podemos ver, resultou de um desses dias de silêncio e contemplação. Entre nós os dois, só existia essa vasta mancha que em dias difíceis se veste de cinza para nos mostrar que a vida nem sempre é feita dos tons que escolhemos. Mas essa mesma mancha também se cobre de azul nos dias felizes para nos lembrar que o chão também é feito de céu e que nem todas as caminhadas serão ingratas. Acho que fizeste questão de que o mar estivesse presente em todos os nossos passeios porque foi a ele que incumbiste a tarefa árdua de cuidar de mim e me guiar por esses trilhos de agora em diante.

Há uns tempos escrevi um texto ao teu lado. Chamava-se “Queres ir comigo ver o mar” – que é a frase que melhor nos caracteriza. Contudo, nunca permiti que o lesses porque, no fundo, sabia que o interpretarias como a despedida que ambos pretendíamos evitar. Mas, entre outras coisas dizia assim: “O meu pai conhece este mar melhor do que todos nós. A vida, viveu-a toda aqui, de rocha em rocha. De poço em poço. Lapa em lapa. E eu desde pequena que lhe vi as redes e lhe herdei a paixão. Ele conhece todos os socalcos desta areia. Sabe onde estão os polvos, as navalheiras, as caramujas, os percebes e os mexilhões. Há quem diga que ninguém corre por entre estas pedras melhor do que ele. E nem nos mais graves invernos tirava férias da sua paixão. Já nos verões, enchia-me de travessas desses frutos que o oceano plantou. E eu, de brilho nos olhos e água na boca, trincava-lhes as carapaças a dente. Qual quebra-nozes…

Agora, colocando os olhos da barriga de lado, sei que o mais bonito é que, pelas manhãs, eu sabia que as escadas lá de casa cheirariam a Moledo – que é como quem diz, o cheiro dos fins de tarde de nevoeiro, que nos traz a maresia até às entranhas do peito.

Quando partir quero ser onda – tenho a certeza. Ou então quero ser um beijinho – não desses que nós sabemos dar. Um desses que se disfarça de areia: quando em pequena, passei horas a revirá-la à beira-mar, à procura dessas pequenas conchas que – sem eu saber – já me ensinavam que a vida é uma incessante conquista por aquilo que não temos a garantia de vir a encontrar.”

Este texto comoveu muitos, mas encheu-me de calor Pai. E sabes porquê? Porque nesse dia percebi que todos temos muito de mar e de Locas dentro de nós.

Um dia hei-de ser onda contigo, prometo-te. Até lá, quero que te recordes: enquanto houver sol, chuva, mar ou nevoeiro, tu estarás entre nós.

Melhor do que ninguém sabes o quanto nos move ir atrás do desconhecido – e bem me recordo da vez em que cortaste o bigode para que eu prometesse que voltava a casa. Ir atrás do desconhecido é como quem diz, lançar as redes mesmo sem certeza de que voltarão com peixe. E eu, nessa ânsia da descoberta, cruzei e cruzei fronteiras na procura incessante pelo que ainda não encontrei. Nesses caminhos, tive a possibilidade de observar a morte de diversas formas. Há quem se cure dela dançando, há quem se cure dela gritando. E há os que, como nós, tiveram a sorte de beber um pouco de Fé e acreditar que os corpos sim se transformam em pó, mas a essência da vida se mantém como uma nortada que caminha por Moledo atirando as folhas das árvores ao chão.

Penso que a morte, está para a vida, como uma dessas viagens que marcamos mas cujo destino desconhecemos – seja a cor, o cheiro ou o sentido. Pela primeira vez Pai, tenho medo de ir sozinha e por isso peço que me acompanhes. Que nos acompanhes.

Tenho muito mais para te dizer, mas deixo essas conversas para mais tarde. Para nós. Por agora, quero agradecer-te: pela vida, pelo caminho. Nunca me vou esquecer de uma frase que me disseste “Inês, as flores dão-se em vida” e tu deixaste-me um jardim Pai. Deste-me as mulheres mais bonitas para me acompanharem. Deste-me uma mãe sem precedentes, sem fronteiras. Uma mulher tão forte e boa que o que eu mais quero é conseguir ser metade do que ela é. Vocês os dois ensinaram-me que o amor e o perdão são os elementos mais importantes na vida. E só posso agradecer a ambos por esta caminhada que nos mostrou a todos qual o verdadeiro sentido de família.

Amar também é deixar partir, eu sei. Mas, citando um livro que se cruzou comigo nos meus primeiros passos pela faculdade “na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos sempre cinco”.

Para terminar, não posso deixar de fazer uma referência a esta doença que tanto nos leva. Leva-nos pais, mães, irmãos, amigos – mas não tenho qualquer tipo de problema em tratar-te por tu, cancro. Não te escrevo de letra maiúscula porque acho que é preciso ser-se muito fraco para se vencer atacando aquela que é a unidade básica da vida. Quero apenas dizer-te que podes levar-nos a presença física dos que mais amamos. Leva. Leva toda a matéria orgânica que conseguires encontrar. Mas não te esqueças que a alma, as histórias, as memórias – essas permanecerão naquilo que tu jamais conseguirás alcançar: a eternidade.

Por último, apenas citar umas palavras que este ano me marcaram para sempre e que poderão também fazer a diferença nas Vossas vidas: “esforcem-se um pouco mais, sejam um pouco mais ambiciosos, arrisquem e experimentem algo novo. Corram um pouco mais depressa. Nadem a uma maior profundidade e vão um pouco mais longe”.

Pai, amar-te-emos eternamente.