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O abandono de crianças

Há dois ou três dias, uma menina de um mês de idade foi abandonada junto a uma instituição religiosa no Cacém. Este acto é crime, socialmente condenável e a pobreza não pode justificar tudo. Estou certo que quem abandonou a criança, se tivesse ido a uma associação, o caso seria tratado de uma forma mais justa para a recém-nascida e para a mãe. Muitas vezes as causas não são só pobreza financeira, mas também pobreza de espírito e diversos tipos de dependências e degradações. No entanto, neste caso, a vítima é uma recém-nascida. Mas haverão pessoas muito mais habilitadas do que eu para opinar sobre uma temática que mexe com a vida e as emoções.

A mim toca-me particularmente este assunto porque a minha família mais próxima está definitivamente marcada por um abandono. De facto o meu avô paterno foi abandonado à porta de uma instituição religiosa certamente há mais de 100 anos. Esse meu avô, que eu nunca conheci, deve-se ter interrogado muitas vezes quem seriam os seus pais e porque o abandonaram, mas nunca obteve respostas. O meu avô tinha o nome de José Guimarães (foi encontrado em Guimarães) e eu sou José Pedro Guimarães como forma de homenagem dos meus pais ao meu avô que sempre quis o melhor para os seus filhos.

Mais tarde, o meu avô casou-se e foi pai de dois filhos e só os abandonou precocemente quando morreu de tuberculose. Depois, o meu tio Zequinha morreu com cinco anos, morreu vinte anos antes de eu nascer. O meu pai, mais tarde e em tom de brincadeira, considerou isso uma sorte por como os meus avós tinham que trabalhar, era o meu pai que tomava conta do frágil Zequinha. Ao morrer, o meu pai pode ir para a escola estudar.

Enfim, o tempo faz esquecer o passado, pouco interessa agora à minha filha saber se o trisavô foi abandonado ou não, ao filho dela muito menos. Eventualmente, para além dos meus pais, talvez apenas eu e os meus irmãos tenhamos alguma curiosidade.

Porém, a vida poderia ter sido diferente, talvez eu nem existisse, mas ainda bem que assim é e não quero entrar nos “ses” e no reino das probabilidade. Talvez tenhamos herdado desses seres desconhecidos, os meus bisavós paternos, a capacidade se sermos felizes, mesmo nas situações mais adversas.

 

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