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Ministro da Defesa português contradiz Macron

O ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, assumiu em Bruxelas que discorda das recentes declarações do Presidente francês sobre a NATO, considerando que Emmanuel Macron “quis agitar as águas”, ao falar em “morte cerebral” da Aliança Atlântica.

“Não partilho do ponto de vista do Presidente Macron. O Presidente Macron naturalmente que quis provocar, quis agitar as águas, quis provocar uma reflexão”, comentou João Gomes Cravinho, acrescentando todavia que essa “é uma reflexão que está em curso desde há vários anos”.

Gomes Cravinho, que falava à margem de uma reunião de ministros da Defesa da União Europeia, adiantou que as declarações de Macron não foram objeto de discussão no encontro ministerial, em Bruxelas, onde se discutiu sobretudo “o reforço do pilar europeu da NATO e o desenvolvimento de capacidades próprias, autónomas da UE”.

“A nossa ideia sobre a NATO é que o pilar europeu dentro da NATO tem ainda uma grande margem para evoluir, para se consolidar. A nossa ideia sobre a UE é que há muitas áreas, muitos tipos de missão, em que fará mais sentido trabalhar com a UE em vez de trabalhar com a NATO, e tudo isto, em nossa opinião, pode ser feito sem contradição. Esperamos que outros parceiros, aliados da NATO, parceiros da UE, tenham a mesma visão”, disse.

O ministro reiterou que “a perspetiva portuguesa sobre esta matéria é muito clara”, sendo Portugal “um país transatlântico” que defende uma “trabalho em conjunto de forma harmoniosa” entre União Europeia e Aliança Atlântica.

“Somos um país que está ali no Atlântico e para quem as relações transatlânticas são muito importantes. Somos um país plenamente confortável com o desenvolvimento de uma identidade europeia de Defesa e, portanto, interessa-nos que estas duas dimensões, NATO e UE, possam trabalhar em conjunto de forma harmoniosa. Essa é a nossa preferência, nós não temos capacidade para impor a nossa preferência. Teremos obviamente de nos ajustar às circunstâncias. Mas tudo o que nós pudermos fazer para que o trabalho conjunto entre NATO e UE seja harmonioso, fá-lo-emos”, afirmou.

Na semana passada, também o ministro dos Negócios Estrangeiros, Augusto Santos Silva, em entrevista à Rádio Renascença, considerou que “dizer que a NATO está em morte cerebral é muito exagerado e sobretudo é muito pouco conveniente do ponto de vista político”.

Numa entrevista publicada na semana passada pela revista The Economist, o Presidente de França defendeu que a organização de defesa que junta a Europa aos Estados Unidos, a NATO, está em “morte cerebral” devido ao afastamento dos norte-americanos e ao comportamento da Turquia.

Em vésperas de uma cimeira de chefes de Estado e de Governo da NATO, agendada para o início de dezembro em Londres, Emmanuel Macron defendeu ser fundamental “clarificar os objetivos estratégicos da NATO”, referindo a necessidade de “muscular a defesa da Europa”.

“Não há qualquer coordenação das decisões estratégica entre os Estados Unidos e os parceiros da NATO e estamos a testemunhar uma agressão feita por outro parceiro, a Turquia, numa área em que nossos interesses estão em jogo”, sublinhou o Presidente francês, considerando que “o que aconteceu é um enorme problema para a NATO”.

A Turquia lançou a 09 de outubro uma ofensiva contra a milícia curdo-síria Unidades de Proteção Popular (YPG), que considera terrorista, mas que foi apoiada pelos países ocidentais na luta contra o grupo ‘jihadista’ Estado Islâmico.

A ofensiva aconteceu poucos dias depois de os Estados Unidos se terem retirado da região, tendo a Rússia, principal aliado de Damasco, acabado por se posicionar como árbitro entre a Turquia e a Síria.

O Presidente francês admitiu ainda estar alarmado com a “extraordinária fragilidade da Europa”, afirmando que esta “desaparecerá” se não “se considerar como uma potência no mundo”.

“Não quero dramatizar, procuro ser lúcido”, sublinhou, apontando três grandes riscos para a Europa: “esquecer-se de que é uma comunidade”, o “desalinhamento” da política norte-americana em relação ao projeto europeu e o surgimento da China como potência “que, claramente, marginaliza a Europa”.