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Mensagem para o ano 2120, na próxima pandemia

Estamos a caminhar para os finais do mês de Setembro do ano de 2020.

Contra todas as previsões otimistas de cartomantes, astrólogos, comunidade bruxa, adivinhos e outros papa-lorpas, tem sido um ano péssimo.

As autoridades chinesas anunciavam em finais de Dezembro o surgimento de um novo coronavírus. A Organização Mundial de Saúde recebia um comunicado acerca de casos de pneumonia de origem desconhecida na cidade Chinesa de Whuam.

A primeira morte por coronavírus foi anunciada a 11 de janeiro de 2020 pelas autoridades chinesas. A 13 de janeiro a OMS anunciava o primeiro caso de infeção pelo novo coronavírus, agora conhecido como covid19, fora da China, mais propriamente na Tailândia, por uma mulher que tinha regressado de Whuam.

A 11 de Março de 2020 a OMS declarou o surto uma pandemia.

Na China milhares de pessoas são infetadas pelo vírus, e centenas morrem diariamente como consequência dessas infeções. No entanto, segundo as noticias da BBC, voos provenientes da China, mais propriamente da cidade onde tudo parece ter começado, Whuam, não têm qualquer controlo na chegada aos aeroportos, em termos de testes aos seus passageiros, mesmo com a forte possibilidade de alguns deles, se não a maioria, transportarem além de bagagem e bens pessoais, o vírus que em muitíssimo pouco tempo se espalhará desenfreada e livremente.

Começa-se a ter a verdadeira noção da pandemia à medida que pessoas infetadas pelo vírus vão enchendo os hospitais, que por sua vez não estão preparados para a verdadeira dimensão do problema.

Os políticos têm que começar a tomar medidas para as quais, nem eles nem a população estão verdadeiramente cientes ou conscientes das suas reais consequências ou efeitos benéficos. Começam os confinamentos, as restrições, as confusões entre direitos e liberdades e a urgência em controlar um vírus que se espalha de uma maneira diabólica.

O governo britânico demora imenso tempo a tomar medidas mais drásticas afirmando consistentemente não ser a altura certa para o fazer. Alguns “entendidos” fazem comparações com o verdadeiro flagelo que acontece em Itália, afirmando que o Reino Unido está umas semanas atrasado no que respeita ao chamado pico da pandemia, e baseados nessa teoria dizem não ser “ainda” o tempo de tomar medidas, tais como confinamento, uso obrigatório de máscaras etc.

O Reino Unido muito depressa passa a ser o número 1 em toda a Europa com o maior número de infetados e de mortes como resultado da pandemia do covid-19.

É então que se começa a impor o confinamento, quando o número de mortes por covid-19 vai já na casa dos milhares.

Faltam equipamentos de proteção para os chamados trabalhadores da linha da frente. Médicos e enfermeiros são obrigados a tratar doentes com o vírus sem o material adequado à sua própria proteção. Mas os hospitais não são só compostos por médicos e enfermeiros. Há um vasto número de pessoas, com trabalhos menos visíveis, mas não menos importantes, que contribuem e muito para o funcionamento desses hospitais e para o seu verdadeiro sucesso para que tudo funcione. Toda esta gente, de um momento para o outro fica exposta ao contágio sem que haja uma solução viável para diminuir os riscos que correm diariamente, elas e eles e as suas famílias e amigos.

Surge o medo. O pessoal que trabalha nos hospitais, lares, casas de saúde, supermercados, motoristas, etc., têm receio de voltar para casa no fim do seu turno, depois de terem estado expostos ao perigo, sem qualquer proteção, sem saberem, no fim de um dia cansativo de trabalho, se levam com eles o vírus para casa, para os que mais amam.

Muitos não querem correr esse risco e ficam longe de filhos, pais, maridos, esposas, namorados e namoradas, etc.

Apesar dos louváveis e reconhecidos esforços dos profissionais de saúde em resposta à pandemia, o sistema em si, com as suas já naturais falhas, ficou virado do avesso. O corona passou a ter prioridade em tudo. Cancelaram-se operações, tratamentos de cancro, consultas cruciais e os postos médicos fecham as portas na cara dos seus utentes e dão como alternativa consultas pelo telefone. Sem lhes olhar para a cara…!

Quem tenta, mesmo assim, marcar consulta pelo telefone, passa horas à espera de que este seja atendido e quando isso, às vezes quase por milagre, acontece, acaba por ser mal atendido. Na maioria das vezes…despachado.

E como, mesmo em situações de pânico, agonia, e sofrimento, há sempre uns quantos energúmenos, escroques e excremento da sociedade, a tentar tirar proveito da desgraça, a criminalidade envolta do coronavírus aumentou drasticamente, porque esses “scum bags” da sociedade tentaram, e em muitos casos conseguiram, lucrar com o sofrimento e a dor, especialmente dos mais vulneráveis. Tem destas coisas, a espécie.

Por aqui, no Reino Unido, todas as quintas-feiras exatamente às 8 horas da noite as pessoas vem às janelas, às varandas, portas ou mesmo na rua, e batem palmas aos trabalhadores da linha da frente.
As palmas são um bom incentivo, um reconhecimento e agradecimento, mas como dizia o meu saudoso pai… Tum tum não enche barriga. São precisas ações, e até ao momento, as que se têm tomado têm o resultado de uma volta na montanha russa.

Começo a sentir a pandemia por uma constante perturbação, um aperto no peito e uma sensação de persistente preocupação com medo à mistura. Mais pelos que me são queridos do que por mim mesmo.
Acordo por volta das quatro da madrugada sempre com o mesmo aperto no peito, a mesma sensação estranha de quem está a viver um pesadelo.

Os primeiros pensamentos de uma manhã que está ainda por nascer vão para os meus filhos e a minha esposa. Convém dizer primeiro, que nesta altura, meados de Março de 2020, estou a trabalhar longe de casa e por isso acordo sozinho no meu quarto alugado.

Será que os rapazes estão sãos e salvos? O aperto intensifica-se ao pensar quando poderão eles ficar infetados.

E a minha companheira de uma vida? Estou preocupadíssimo com ela porque trabalha no hospital e por isso está constantemente a arriscar. Falo com ela ao telefone, faço mil e uma recomendações, mas no fundo nem eu acredito ou estou convicto nos conselhos que lhe dou. Sugiro-lhe que não vá trabalhar. Responde-me convictamente que o hospital não pode parar e que há pessoas em que a vida e a saúde delas depende de todos aqueles que apesar de tudo mantém os hospitais a funcionar. Admiro-a profundamente por isso.
O meu contributo nesta pandemia foi feito em Luton, Inglaterra, numa companhia chamada GKN Aerospace e que contribuiu conjuntamente com cerca de mais de uma dezena de outras prestigiadas companhias no UK Ventilator Challenge, no fabrico de ventiladores para o serviço nacional de saúde, NHS.

Já se sabe que os hospitais, mesmo os melhores, não estavam preparados para atender e salvar um número elevado de pacientes que começaram a chegar às dezenas e centenas, daí que o governo, em conjunto com essas companhias, iniciou este projeto por haver uma necessidade urgente de ventiladores.

Em cerca de quatro semanas sou forçado a uma quarentena, quarentena que ao contrário do que o nome possa supor só durou quinze dias. Depois voltei ao trabalho, três dias depois perdi o trabalho, e uma semana depois estou a trabalhar em algo totalmente diferente daquilo que era a minha profissão.

Ninguém estava autorizado a mexer no que quer que fosse enquanto não tivesse a formação e o devido certificado a confirmar que o engenheiro havia aprovado essa formação. Havia quem demorasse mais e quem demorasse menos a assimilar tudo o que era preciso saber. Estamos a falar de um aparelho do qual a vida de uma pessoa dependia.

Consciente disso, no meu tempo de espera até que houvesse um engenheiro disponível para me dar a formação, coloquei toda a minha atenção nos que estavam já a receber essa formação. Fiquei com sete olhos, tirei apontamentos, especialmente na parte dos testes à peça, que eram os mais complicados.

Quando chegou a minha vez, fui aprovado nesse mesmo dia na parte da montagem e no dia seguinte nos testes. Não porque eu fosse melhor do que os outros, apenas porque, além de ser pago, bem, pelo trabalho, pela primeira vez o que estava aqui em questão não era só ser profissional no que estava a fazer, mas acima de tudo consciente de que do meu profissionalismo poderia ser salva uma vida. Ou muitas.

Não foi uma tarefa fácil. O raio da máscara, a viseira, os óculos de proteção, mandatório desde o momento em que se entrava no recinto da companhia e até que se saía, eram como que uma entrave irritante sempre que o calor e o mau estar provocados pelos apetrechos interferiam com o trabalho. Isto já para não falar no raio dos óculos, embaciados à medida que respiro, durante quase todo o turno de trabalho. Mas…em tempo de guerra não se limpam armas.

Tudo parece muito complicado até começar a ser feito, mas depois de se iniciar o trabalho, com concentração e o sentido de responsabilidade no que se faz, há medida que se vai ganhando experiência, tudo se vai tornando mais claro, menos complexo e mais óbvio.

A peça que me foi designada testar regula todo o processo do ventilador depois de construído, desde as diferentes pressões no processo respiratório às possíveis fugas de ar etc.

A minha função era testar as diferentes leituras correspondentes aos números aceitáveis e mediante esse processo, aprovar ou rejeitar a peça que fora construída na estação prévia à minha.

Facilitaria muito o meu trabalho se eu me cingisse apenas a essa regra. E regras são regras, quem faz o que deve, a mais não é obrigado. Mas às vezes também é preciso que em momentos cruciais se quebrem as regras. A consciência, e a experiência também, diziam-me que cada peça que eu rejeitasse por não atingir as leituras necessárias ao seu bom funcionamento, iria atrasar os objetivos a alcançar no número de ventiladores prontos, e por isso, usando o meu treino na montagem da peça, desdobrava-me em esforços para retificar cada componente no sentido de conseguir as leituras que eram devidas. Desmontar, mudar peças, voltar a montar, testar novamente…melhorou nas leituras de “air mix”, mas nas de “no air mix” as cinco diferentes leituras exigidas não correspondem aos números estipulados. Voltar a desmontar uma outra parte da peça, reajustar, mudar este ou aquele componente por um novo, voltar a montar, testar…as cinco leituras de “air mix” e as cinco de “no air mix” estão agora dentro dos limites aceitáveis. Mais um teste às fugas de ar, umas vezes passa, outras não. É uma correria, mas se rejeitasse todas as peças que me passam pelas mãos durante o meu turno a estação seguinte iria atrasar, e a seguinte, por efeito de sucessão a mesma coisa, e por aí adiante.

Desdobro-me em esforços. De vez em quando, Kimberly pergunta-me, sem tirar os olhos do seu trabalho, “How you getting on António?” e, às vezes mesmo com os níveis de stress no máximo lá lhe respondo numa enganadora aparente calma, “All good, all good, almost another one aproved…”

A máscara, a viseira, os óculos a maior parte das vezes a embaciar e a dificultar ainda mais e a pôr mais pressão no trabalho, o calor…Há quatro semanas que certos colegas que reconheço pelas vozes, nunca lhes vi a cara.

Chego ao fim de mais um turno e das trinta peças que deveria ter rejeitado reparei-as eu e todas foram devidamente aprovadas.

O meu team leader, Leo Santos, um brasileiro de quem me tornei amigo, agradece-me o esforço e a dedicação.

Estou exausto, mas satisfeito, com uma sensação de dever cumprido.

Hoje foi particularmente um dia quente. Uma onda de calor, dizem os entendidos.

Quando entro no carro, retiro a máscara, a viseira, e puxo os óculos para a ponta da cabeça. Passo um lenço na testa. Foi um dia longo. O relógio despertou às 4 e 15 da manhã. O turno começou às 5.30. Desde que o relógio despertou até iniciar o turno, quinze minutos são para ficar às voltas na cama a lamentar e ao mesmo tempo mentalizar a crueldade de ter que sair da cama quando o sono parecia finalmente ter chegado. Dez minutos para as higienes matinais, a seguir vestir às pressas e descer as escadas para me encontrar na cozinha com o meu amigo Dai Mal para um cafezinho rápido. Vivemos na mesma casa e partilhamos a boleia. Uma semana no meu carro, na semana seguinte no dele. Esta semana é no dele.
O resto do tempo, das 4.45 até às 5.30 o início do turno, é para a viagem e as incertezas do tráfego, por se aproximar muito de Londres. Mais um cafezinho e dois dedos de conversa com os colegas da companhia e pegar no trabalho que foi deixado pelo turno da noite, para lhe dar continuidade.

Nove horas e quinze minutos depois de o relógio ter despertado chego ao fim de mais um dia de trabalho.
Estou tão exausto que quase me sinto fundir com o assento do carro. O sol bate no vidro da frente, Dai Mal abre os outros vidros e à medida que o carro vai ganhando velocidade, a aragem mesmo que quente, sabe bem ao bater na face enquanto que ao mesmo tempo despenteia o cabelo. O pólen das árvores que vem junto com a aragem quente entra-me nas narinas, e com o sol a bater-me mesmo de frente, sinto uma espécie de comichão no nariz que quase me sobe aos olhos. De repente corro a cobrir a face com a dobra do cotovelo e inevitavelmente dou um espirro. Nos tempos que correm espirrar ou tossir quase que é considerado um crime.

Dai Mal, sem desviar o olhar atento na estrada, com um sorriso malandro diz-me, “Make sure you are accurate on your tests…you may need a ventilator yourself, soon…”

Normalmente não sou de compreensão lenta, mas… o cansaço, o calor extremo, o mornaço do vento que entra pelas janelas fazem com que fique uns escassos segundos a assimilar a piada do meu amigo.
Muito lentamente vou soltando um sorriso que se vai rasgando de orelha a orelha. De repente, os dois, em conjunto, soltamos uma gargalhada.

Remato, “You are absolutely right about that.”

Até ao momento em que este texto foi escrito o coronavírus já infetou cerca de trinta e dois milhões de pessoas, (casos conhecidos, mas estima-se que os números sejam bem mais elevados do que isso) e matou quase um milhão de infetados.

A maior parte dos países afetados, depois de um aparente controlo do vírus, preparam-se agora para a chamada segunda vaga…

A saga continua…

Ninguém tem certezas acerca do desfecho desta pandemia. No entanto, eu tenho a certeza de que no ano 2120 não existirei. Somos todos defuntos a longo prazo. A manter-se a tendência de uma pandemia em cem anos, e a acreditar que a humanidade irá vencer a batalha das alterações climáticas, crucial à continuação da sua sobrevivência no planeta terra, espero que na próxima pandemia se possam tirar algumas lições dos nossos erros no então longínquo ano de 2020.

Get it?

António Magalhães

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.