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Mapa dos mares antigos

(Quase-tragédia em três actos e três vozes)

Primeira voz

Eu pensava que a longa espera
era promessa de uma madrugada de prata
que se transformaria em quimera
em manhãs de ouro, cetim e serenata.

Tantas noites a cismar no porvir
embalado por poetas e canções
fantasias, devaneios e poluções
ilusões e sonhos a poluir.

E, para mim, que tudo de bom e de certo
só pode acontecer de manhã
a demora não foi vã
o que se alevantou foi um luar
de agosto e um beijo inexperto
de esquimó à beira mar.

E depois, é verdade,
foi tudo tão novo, delicioso, sem idade,
contudo, eu néscio e imperito,
atraí a meu leito uma leiga amada
e em vez de sermos rito e grito e delito
fomos pouco mais que quase nada
como crianças no escuro
sem eira nem beira
batendo com a tola ora no muro
ora na mesa de cabeceira.

E eis que a loucura
que de parva e de louca
tem muito pouca
– e, além disso, tem cura –,
mostrou-me um espelho ignoto
e eu que queria apenas um broto
segui Euterpe e o seu coelho branco
atravessei para o outro lado da vidraça
a partitura da inocência gravada no flanco
a musa não se deixou tentar pela minha nassa
e a única corda que partiu
foi a do meu coração que ruiu.

Depois veio a extensa travessia
de nenhures para lado nenhum
a flor áurea deflagrou e eu quase morria
queimou-me os dedos um a um
junto ao precipício sem fundo,
e eu decidi fazer o quê? saltar!,
porque não me restava no mundo
nada senão naufragar.

Mas as pítias e os oráculos em concílio
tiveram dó de mim e do meu desfado
escapei ao ocaso e ao exílio
e foi como se o feitiço tivesse quebrado.

Manhã nova e alegre, viste?
Tudo exórdio e verde outra vez,
linhas e nós que a vida refez.
Alunei num planeta dourado e triste
como o de Saint-Exupéry
mas o meu porto de abrigo amigo
não era definitivamente aqui.

As águas do Daugava também me atraíram
como um véu delicado que pousasse
sobre o meu rosto e afagasse
as feridas abertas que surgiram,
de Babilónia a leda fragrância
anunciava felicidade e abundância,
mas o rio recusou a navegação
e eu fiquei de âncora na mão
tão massiça e pesada
como a minha alma subjugada.
A sereia de Vars prometeu-me consolo
dias de deleite e prazer
e os estorninhos do Oder
encavalitando-se no meu colo
sobrevoaram a pradaria
em zombaria e eu já sabia
que aquela faia
era tão pouco a minha praia.

Depois veio o tempo insano
das ervas daninhas, arenosas
das quecas venenosas
que emprenharam muito dano
veio mais uma enxurrada
mais um temporal que se alevantou
rebentou-me os diques e devastou
o que ainda restava.

Eu, em vez de aprender,
fiz-me novamente ao mar a fender
as vagas frondosas e majestosas
sem temer harpões nem anzóis
que me rasgassem os lábios e os lençóis.

Porque eu sou assim, eu
sou assim, viciado neste esplendor
um alfa, um ómega, Tristão, Romeu
e também lobo do mar, é preciso, é preciso navegar
conquistar novas ilhas, baías e costas e enseadas
nunca desistir das viagens e das jornadas
lutar sempre pelo amor.

Uma ninfa cantou-me aos montes
os namoros dos cântaros que vão às fontes
sem saber que a do meu peito
tinha secado e se rarefeito
e era agora mero músculo-pistão
sem verdadeira função.

Mas como o tolo é crente
perante as mesmas fintas
repete as mesmas cincas
esperando um resultado diferente
volta a acreditar no amor
todavia apenas herda mais dor.

E foi assim: o dia rompeu de mil cores
e flores e sabores e olores
como uma confiança doce que traz travo
de perfume e mel na boca
mas assim que o sol declinou já ia bravo
a chuva encheu-se de negro e medrou rouca
depois rebentou em ventanias turbulentas
o breu e o pez alastraram numa noite longa.
Dissipei a candonga pirangueira monga
não escapei porém ao Cabo das Tormentas.

Deste árduo e fragoso dobrar
como há quinhentos anos no mar
apesar das velas todas rasgadas
do casco esventrado e despedaçado
da poupa rota e do leme emproado
raiou uma nova esperança
da alvorada cinzenta que despontou
nasceu a mais bela criança
que brotou do que eu sou
e assim me resgatou.

E, de repente, na minha vida virada
do avesso, exangue,
torcida, deslocada,
esporeada até ao sangue,
tudo mudou para sempre,
perfeita e completamente
e tudo se tornou tão claramente
como deveria ser finalmente.

Segunda voz

Com gáudio, soberba e empáfia
quem escreve direito por linha torta
vira-se para mim com pertinácia
e sussurra-me com o dedo-dardo na aorta:

– Digas o que disseres
escrevas o que escreveres,
Eu, Eu tenho sempre razão!
– O que queres que te diga?
– Pára com o choradinho e siga
pára de pensar que a ti
tudo te foi negado ou vedado
e que tens de contentar-te com migalhas
e sobras e restos e outras tralhas
e que o destino quer ditar-te
o que viver, com quem deves deitar-te.
– Sim, e o que faço com tudo isso?
– O Universo dá sempre um jeito
se ao que pretendes dá sumiço
é porque te dá o que te deve por direito.
– Mas, e se eu não quiser esse fado?
– Então viverás numa eterna bastida…
Não, espera! Mas tu alguma vez, bastardo,
terias a decência de te revoltares e de amputares
a ti mesmo a linha da vida?
Tu, o da mansarda,
aquele que nunca ousa e se aventa
aquele que nunca se lança e sempre tarda
aquele que nunca se põe em perigo
o freak control, o verbo de encher, o raparigo
que rejeita o ímpeto, o impulso, o rasgo
quantos beijos foste tu que deste
(deixa-me rir, ai que me engasgo!)
e quantos tu realmente quiseste?
Pensa nisso
e no teu suposto enguiço!

Terceira voz

O barco tonto e ébrio, de vela rasgada
quilha remendada e popa acossada
aventura-se agora em oceano desconhecido
pega a bisa de lado, soçobro indeferido.
E esta rota onde te leva, ó barcaça ufana
da poesia inane, balofa e plana?

Ao fim ao cabo, as tuas tempestades
e os teus poemas continuam
sempre no fim do mundo e não mudam
nem os baixios, as hostilidades,
as borrascas ou a perunca,
e com isto tudo nem o fim
nem o amor chegam nunca.

JLC01082019