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Livro: “Murro no estômago”

«De início, a mãe dele dizia-me: Pode não haver razões para levares porrada, mas ele tem razões para te bater. A própria mãe tinha sido vítima de violência e achava que a mulher tinha de estar ali para o homem; se este vem chateado para casa, não vai fazer as asneiras for, tem de ser ali. Eu tinha de me sujeitar a que ele me batesse porque, para ela, era um direito que ele tinha”.

A obra “Murro no estômago” não é um relato ficcionado, não é uma construção narrativa de personagens inseridas num determinado espaço, com vivencias num hiato temporal. Paulo Jorge Pereira deu voz às mulheres que foram ou são vítimas de violência doméstica, enquanto ouve os técnicos de saúde e de apoio às vítimas. Aponta caminhos, apoios, soluções.

“Murro no estômago” é isso mesmo, um murro no sentido literal e metafórico do termo. Depois de ler este livro, não somos mais os mesmos, não podemos ser.

Os relatos são dolorosos, inimagináveis. Mulheres entregues a um clima de terror e desespero. O sentimento de medo, de insegurança, de abandono atravessa toda a narrativa das suas histórias.

O denominador comum destas histórias é um fator cultural, quase sempre hereditário. A maior parte dos agressores e das vítimas já cresceram em ambientes de violência doméstica. Alguns foram educados nesse sentido.

Muitas destas mulheres sentem-se injustiçadas. Para fugir às investidas do agressor e procurar proteção e abrigo, para elas e para filhos, deixam as suas casas, compradas com o seu trabalho, e o agressor fica livre ao mesmo tempo que usufrui dum espaço e de liberdade.

“A violência doméstica é um crime, não é uma questão social ou cultural. É um crime que acontece numa dinâmica relacional entre duas pessoas que se apaixonaram, fizeram projetos, tiveram filhos como quaisquer pessoas, mas, entretanto, correu mal”

Paulo Jorge Pereira, deu com esta obra, e ao dar voz a estas mulheres, a estes técnicos, um enorme contributo à sociedade, no sentido de ajudar a desvendar tantos casos de violência doméstica, no nosso país e pelo mundo fora. Os técnicos relatam as suas vivencias, as suas angústias, o sentimento de entrega, no terreno, as dificuldades que enfrentam, as soluções que procuram, no sentido de viabilizar respostas para uma melhor compreensão e apoio às vítimas.

“Quis contar a minha história na esperança de que alguém que esteja a passar pelo mesmo ganhe coragem para sair desta situação e peça ajuda, porque isso é muito importante”

Este livro não é de leitura fácil, li-o muitas vezes com as lágrimas a cair pelo rosto.

Contudo, é necessário tomar conhecimento destas realidades, cada vez mais visíveis de formas gravíssimas, na nossa sociedade. Quer do ponto de vista das vítimas, quer do ponto de vista dos técnicos. A fim de que as vítimas não se sintam ignoradas, abandonadas. E de que há sempre uma solução antes de um fim verdadeiramente trágico.

São Gonçalves

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.