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Graciliano Ramos: estilista incomum

Conquanto se tente, no campo de estudos da estilística, a definição mais precisa e completa de estilo, ficamos com a de Buffon, para quem “o estilo é o próprio homem”. Poderão observar que não é a mais completa, entretanto, para nós, se configura aquela que mais a fundo vai à essência da definição de estilo.

Quando lemos os grandes autores da literatura universal, não é difícil identificarmos o quanto seus estilos estão intimamente ligados às suas próprias experiências de vida, às suas concepções de mundo. Parece-nos correto afirmar terem sido as experiências desses homens com o ambiente que os cercou a fonte moldadora de seus estilos.

Analisemos um exemplo especialíssimo na literatura brasileira, o do grande mestre Graciliano Ramos. Tendo publicado seu primeiro livro, Caetés, quando já passava dos quarenta anos, tal era sua preocupação em não levar ao público uma obra mal acabada e imperfeita, que nela já era possível vislumbrarmos sua concisão e elegância de estilo, bem como suas concepções filosóficas acerca do homem.

Decorridos cinco anos de sua estréia literária, ao dar a lume o seu clássico Vidas Secas, ganharia nossa literatura uma de suas maiores obras. Difícil é encontrarmos quem leia a saga dos retirantes nordestinos, expulsos de seu ambiente por uma estrutura social perversa e desumana, sem ser levado à emoção. Em Vidas Secas temos a oportunidade de entrever a extrema preocupação do escritor alagoano com a depuração do estilo. Estilo no qual sequer uma palavra se faz supérflua. E é a biografia do mestre a nos indicar que em sua existência  nada se fez excessivo. Seu comportamento ético, sua coerência de princípios e a arte depurada que nos legou dão o panorama de seu incessante trabalho de compreensão do mundo.

A busca da perfeição de estilo em Graciliano o levava a passar horas reescrevendo um único parágrafo, uma única frase. Certa feita, confidenciou ao amigo e também escritor Antonio Olavo Pereira ter passado uma madrugada inteira em claro a reelaborar o primeiro parágrafo de um conto que lhe haviam encomendado.

Pelo exemplo de Graciliano, devemos ter nítido o fato de jamais hesitarmos reescrever nossos textos, mesmo que não pretendamos produzir uma obra de arte, pois quantas vezes não nos defrontamos com textos que pela falta de clareza nos levam ao desânimo e ao cansaço? Que o exemplo do mestre Graça, como era carinhosamente chamado por seus amigos, seja evocação sempre presente para nós.

 

Sobre o autor do artigo: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.