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Escrever poesia

O segredo não é escrever poesia
é vivê-la.
Apenas se escreve
com a vaidade da imortalidade.
Vã fortuna. O Homem
por mais imperfeito
que assuma ser
tem o desejo indecente
de não querer morrer
nunca.
Consciente dessa impossibilidade
física, procura cumprir na sua vida
algo para que o recordem
mais tarde: filhos, terras,
fortunas, eventos, obras,
construções, monumentos, escritos.

Penso que de todos
estes projetos de vida
o mais nobre deve ser o de dar a vida.

Também eu já fui abençoado
por essa maravilhosa
e indescritível aventura de ser pai –

indescritível, porque nunca
haverá palavras suficientemente
bem inventadas
para dizer o que é ser-se pai,
um quebra-cabeças e uma ansiedade diária
e simultaneamente
uma harmonia e uma felicidade
tão simples e serenas
quando os nossos filhos
nos sorriem e correm
para os nossos braços.

Já tive um filho.
Já plantei uma árvore.
Já escrevi um livro.

Não foi nesta ordem,
mas que importa isso?

Escrever é para mim
uma nobre missão.
Escrever poesia
é para mim a mais nobre das missões.

Os poetas têm primeiro que sonhar
o mundo para a Humanidade o construir.
É apenas mais belo sonhá-lo
porque quem o sonha o sublima
e quem o constrói o perverte logo a seguir
e o paradoxo disto tudo é que
os dois são um e o mesmo,
o Homem.

Escrever é mais do que uma missão,
é necessidade, é viver, é respirar,
é balão de oxigénio quando
os dias cinzentos se acumulam todos
juntos no fundo da minha alma como um blob.

A poesia serve-me para isso,
para limpar o meu porão com luz.
A poesia é isso,
é a alma a querer ser matéria.
Consubstanciação metafísica
das mais brilhantes
se as há.

JLC21032019