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Emigrantes açorianos recordam erupção do vulcão dos Capelinhos

O senador John F. Kennedy (JFK) ‘resgatou’ para os Estados Unidos as vítimas do vulcão dos Capelinhos, na ilha do Faial (1957), recorda Vamberto Freitas, escritor, bem como Luís Andrade, especialista em Relações Internacionais.

Vamberto Freitas, ex-docente universitário e antigo emigrante açoriano (1964-1991), natural da ilha Terceira, que tem acompanhado de “forma particular” o vulcão Cumbre Vieja, em La Palma, nas Canárias, espera que os habitantes da ilha beneficiem das mesmas oportunidades por parte da União Europeia, senão mesmo dos Estados Unidos.

Tendo vivido 27 anos em Los Angeles, onde completou a sua formação académica e deu aulas, antes de regressar aos Açores, Vamberto Freitas foi um dos milhares de açorianos que aproveitaram a “oportunidade” gerada pela erupção vulcânica dos Capelinhos para assim alcançar o “american dream”.

O também crítico literário recorda que o senador (e posteriormente Presidente) John F. Kennedy, que “sempre foi muito amigo dos açorianos, por várias razões, engendrou no Senado [dos Estados Unidos] a ideia de que o vulcão dos Capelinhos, não tendo matado ninguém, afetou toda a economia dos Açores, e que os açorianos precisavam de ajuda”.

O ex-emigrante recorda que “havia quotas [de emigração] muito restritas para Portugal e estas aumentaram de imediato”, dando lugar às denominadas “cartas de chamada”.

As “cartas de chamada” permitiam reagrupar agregados familiares, tendo “largas centenas de famílias açorianas beneficiado desta medida” protagonizada pelo antigo Presidente norte-americano.

“Não é sem mais nem menos que todos os anos, incógnito, o sobrinho de JKF, Patrick Kennedy, vem cá, aos Açores, passar férias”, comenta.

O ensaísta aponta que, tal como os açorianos, JFK, de origem irlandesa, “era católico”, sendo o arquipélago “muito parecido com o seu país de origem em muitos aspetos”, e “respeitava muito as comunidades de origem açoriana, como respeitaram depois os seus sucessores na política”.

O professor universitário Luís Andrade, especialista em Relação Internacionais e docente da Universidade dos Açores, recorda que o ex-Presidente norte-americano levou ao Congresso dos Estados Unidos da América (EUA), em 1958, uma lei, conhecida por “Azorean Refugee Act”, que permitiu a milhares de refugiados do vulcão dos Capelinhos recomeçarem as suas vidas naquele país.

Luís Andrade refere que “na sequência do vulcão dos Capelinhos, houve, pela primeira vez na história das relações bilaterais entre Portugal e os EUA, no dia 02 de setembro de 1958, a passagem da lei ‘Azorean Refugee Act’, que inicialmente atribuiu 1.500 vistos”.

O valor foi “substancialmente aumentado para as pessoas que tinham sofrido os efeitos terríveis desta catástrofe natural”, diz.

O especialista em Relação Internacionais explica que JFK era, na altura, senador pelo estado de Massachusetts e contou com o apoio nesta iniciativa de outro senador, eleito pelo estado de Rhode Island, também ele democrata, John Pastore, fazendo aprovar esta legislação que surgiu para além da quota regular de imigração estabelecida.

O professor catedrático da Universidade dos Açores considera que este foi um “acontecimento extremamente importante” por os EUA terem “aberto as portas” à emigração açoriana e, sobretudo, da ilha do Faial.

O especialista frisa que o deputado estadual Joseph Perry, também do estado de Rhode Island, desempenhou um papel importante no processo, mas foi o senador Kennedy que teve um “papel determinante”.

“Os açorianos e os portugueses em geral, e concretamente os faialenses, devem estar extremamente agradecidos ao Governo dos EUA de então, na medida em que este permitiu que houvesse essa janela de oportunidade”, considera.

Luís Andrade destaca a relação de proximidade que entretanto a comunidade de emigrantes desenvolveu com o clã Kennedy como “sinal de reconhecimento” por JFK ter intercedido junto do Congresso norte-americano.

A lei “Azorean Refugee Act” permitiu que milhares de açorianos – não apenas as vítimas do vulcão dos Capelinhos – aproveitassem a janela de oportunidade criada, melhorando substancialmente a sua qualidade de vida em território norte-americano.

Numa primeira fase, lembra o professor, foram concedidos 1.500 vistos destinados a chefes de família da ilha do Faial que emigrassem até 30 de junho de 1960. Uma emenda posterior alargou para 2.100 o número de vistos, o que permitiu que 2.500 famílias emigrassem, num total de cerca de 12 mil pessoas.

Devido ao mecanismo de reunificação familiar, nas décadas seguintes mais de 175 mil açorianos partiram para os EUA, estimando-se que hoje vivam naquele país cerca de 1,5 milhões de açorianos e seus descendentes.

Tal como o vulcão Cumbre Vieja, apesar de não ter causado vítimas mortais, a erupção dos Capelinhos, que se estendeu por 13 meses, entre setembro de 1957 e outubro de 1958, desalojou milhares de faialenses.