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Ela

Não se espera por ela, mas ela vem. Há de vir.
Evita-se pensar nela, mas ela anda por aí…
Não se espera por ela como quem espera que chegue o sol.
O sol é esperado como um desejo,
Uma vontade que incendeia a vida através de uma luz que a alimenta.
Mas ela não, ela não dá vida. Tira.
Por um ténue momento de clarividência,
Que se esfuma com a mesma pressa com que chega,
Há uma incerteza se o evidente facto é bom ou mau.
Apenas a certeza,
Agora mais do que nunca,
Que ela anda por aí.
Sente-se.
E talvez por isso ementam-se agora todos os momentos,
Os bons
E os maus.
E esses também contam,
Muito embora, se for dado o momento,
Serão lembrados nas horas, quem sabe, minutos,
Que antecedem a chegada dela.
Aqueles pequenos momentos da vida, postos de lado,
Às vezes por muito, muito tempo, não foram esquecidos.
Voltam agora, que há uma espécie de sentimento,
Talvez premonição, que ela anda por aí,
E também é por causa dela, que esses momentos
Que outrora pareceram quase insignificantes,
Fintou-os a memória e o tempo, que pareceu por vezes,
Há tanto tempo, e… parece que foi ontem.
E afinal o que é o tempo
Se não uma constante frustração dos planos de amanhã,
Sempre fora de prazo,
e uma fotografia que se redescobre no álbum de família,
Vem dizer que o amanhã afinal já foi ontem.
E a prova está nessa foto que mostra um penteado já tão fora de moda,
Uma expressão no rosto tão inocente,
Quão inocente são as expectativas
Que se escondem por detrás desse olhar,
Outrora a deixar transparecer uma ténue esperança,
E vontade em conquistar o mundo, quando chegasse o tempo.
Dez, vinte e trinta anos se passaram desde então,
E ainda se espera o tiro de partida.
Afinal o que é o tempo se não uma mera ilusão dos momentos que ansiosamente,
E por vezes, impacientemente,
Se deseja que cheguem depressa, para que se faça,
Ou se tire proveito do que nunca chega a ser feito.
E o proveito sempre aquém do que em torno dele foram as expectativas.
E…dez…vinte, trinta anos se passaram
Sem que houvessem dito,
Que afinal a corrida começara precisamente
Quando tudo parecia insustentavelmente harmonioso,
Com a força, a vitalidade, a vontade e a coragem de quem é novo
E tem todo o tempo do mundo pela frente.
E num desassossego inconscientemente consciente,
Todo o tempo do mundo não é tempo nenhum,
Porque se esfuma mesmo antes de fazer fogo.
Agarrei com força a minha vida,
Sem saber que a mim a deveria prender,
Cuidá-la, tratá-la como quem trata uma ferida,
Para que nunca a venha dar como perdida,
Que a não lamente quando já não a puder ter.
Será que agora,
Neste preciso momento,
É este o sítio onde se queria mesmo estar.
Ou será que este momento
É apenas um pequeno espaço que o tempo irá também devorar,
Depois de nele se manifestar um sentimento de frustração,
Talvez revolta,
Por se constatar que o momento da partida já foi há tanto tempo,
Que quando se da por ele, está-se na chegada, ou perto dela.
Ela está para chegar.
Não se sabe quando. Nunca se saberá.
Por isso, antes que ela chegue,
Seja hoje, amanhã ou depois,
Agora, agora mesmo, sem mais delongas,
É tempo de percorrer o caminho que se pretende percorrer,
Ou, o que dele resta,
Mesmo que, iniciado, não chegue a ser concluído.
Afinal o tempo foi apenas uma ilusão.
As pressas,
As pressas da chegada do fim de semana,
Da chegada das férias,
E nada do que era planeado fazer foi feito.
O tempo que a vida consumiu,
Ardeu como um fosforo, até ao fim.
Tão rápido.

À medida que os dias foram passando, quando a dor finalmente venceu a morfina que deixara de funcionar apesar das suas doses serem constantemente ajustadas, quando a dor desmoronou todas as barreiras da dignidade humana, alvitrou-se dela, enamorou-se dela, e através do insustentável sofrimento do seu corpo, desejou-a com muito maior intensidade do que o medo com que dela sempre fugiu em vida, e de certa maneira foi como se o corpo estivesse, apesar da crueldade do sofrimento, a prestar um último favor ao medo que ela sempre provocou, dando lugar ao desejo do encontro com esse inevitável momento.
É o tempo meu amigo, que se vai.
É o princípio de um novo dia,
O ser liberta-se do que o retrai,
A essência principia uma nova energia.

António Magalhães

(Retalhos do Quotidiano – últimas páginas)

 

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