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Da rubrica: já não estamos a ficar mais novos

Ontem à noite acordei às três da manhã com dor num olho. Não é bem dor, era uma sensação de incomodidade que costumo ter com frequência quando o olho está seco e que passa pondo umas gotas. Só que ao pé da cama gotas nem vê-las, por isso levantei-me e fui buscá-las.

Na casa de banho vi que o frasco das gotas estava vazio e lembrei-me que a minha mãe, que vive um piso acima do meu, devia ter com certeza. Subi as escadas, fui à casa de banho da minha mãe, despejei um esguicho das benditas gotas para um frasquinho que tinha levado, e desci de novo as escadas para pôr finalmente o raio das gotas na minha casa de banho e não incomodar ninguém com a luz, o barulho etc.

Ora, preparava-me eu para encetar tal tarefa, quando me senti subitamente zonza, enjoadíssima, a perder as forças e com um formigueiro quente e frio (sim, era isto) que veio de repente desde a ponta dos pés e das mãos e foi subindo até à cabeça, e antes de ter tempo para o que quer que fosse, as minhas pernas dobraram-se e eu caí no meio do chão.

Já no chão, e sempre de olhos abertos, sem conseguir mexer um músculo juntei quantas forças tinha para chamar o pai dos meus filhos, que por sorte das sortes estava cá em casa estes dias e ouviu a minha voz. Veio a correr, viu-me estendida no chão, eu ainda tentei pedir que me ajudasse a levantar e fui desmaiando alegremente, uma e outra vez, sem que ele me conseguisse tirar dali.

Lá me arrastou para um sítio mais espaçoso (eu tinha caído num cantinho minúsculo), eu estendida no chão de barriga para cima e lembro-me de pensar que estranho era eu não me sentir melhor, e de começar a pouco e pouco a esvair-me para algum lado que eu nem sei o que era. Ia indo, e deixei de pensar.

Só vos digo que este homem vale o seu peso em ouro.

De repente, já quase a ir para outra dimensão, sinto um jorro de alguma coisa vital entrar-me veias adentro, nem sei bem explicar, uma mangueira dos bombeiros a explodir cá dentro, raio de energia a acordar-me daquilo.

O Jakob tinha-me posto as pernas para cima, junto à parede, e aquela coisa maravilhosa que me acordou de chofre era o sangue que finalmente chegava ao coração e ao cérebro.

Imagino que seja isto que as pessoas sentem quando lhes fazem aquela manobra de reanimação com as mãos no peito. Uma onda de vida a encher isto tudo.

Bendito curso de primeiros socorros que este homem fez, por mais do que uma vez, só porque sim e porque se sentia mais seguro sabendo o que fazer em caso de necessidade no meio de uma multidão em pânico (o métier dele é a concepção e produção de eventos em larga escala, e mesmo sabendo que em princípio há médicos e paramédicos por perto, como bom alemão achou por bem, quando começou nestas lides há coisa de vinte anos, aprender o que fazer quando por exemplo no meio do público do desfile de moda há um epiléptico que tem um ataque por causa das luzes).

Resumindo: uma crise de hipotensão (bota hipo nisso), com desmaio etc., a alertar-me que o excesso de stress e a falta crónica de horas de sono se calhar não me ajuda nada nesta idade.

Depois de mais algumas peripécias, de ter bebido açúcar e dormido com várias almofadas a elevar as pernas, hoje estou outra vez rija como um corno e na farmácia quando medi a tensão já tinha uns belos 90/60, que supostamente é tensão baixa mas que é aquela que eu tenho tido a minha vida toda desde que me lembro de alguma coisa.

Hoje o almoço vai incluir um pacote familiar de batatas fritas (ruffles, por favor) e mais uns quantos cafés a somar aos que já bebi de manhã.E muito descanso, e comemorar o facto de o badagaio ter sido ontem e não de aqui a dois ou três dias, quando eu não teria tido ninguém por quem chamar.

O melhor da história: já tudo passado, ataque sobrevivido, pus finalmente as tais gotas no olho. Tinha-me enganado. Não eram gotas para os olhos, era outra coisa qualquer e ardiam como o raio. E portanto depois de quase ter visto anjinhos a voar, às quatro da manhã ainda tive de curar um olho vermelho. Ninguém merece! 😉😄

(A outra consequência: tenho um galo na testa da queda que dei ontem, que nem com muita maquilhagem vai lá. Ter mais de quarenta anos também é isto 😄😄)

Inês Thomas Almeida