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Da oferta e da procura

Marcelo Rebelo de Sousa conquistou a diáspora portuguesa com o seu enorme capital de simpatia e graças à proximidade das pessoas. Aos portugueses cá de fora aportou uma nova razão para admirar Portugal.

Num artigo intitulado “Marcelfies”, que assinei há exatamente dois anos na Visão, escrevi que na noite em que chegou à capital luxemburguesa para uma visita de Estado, Marcelo levou o grão-duque para a rua. O presidente pernoitou no palácio que fica no coração da Cidade do Luxemburgo e, diz-se, que logo que chegou propôs a Henrique um passeio noturno.

Apesar de o Luxemburgo ser um país excecional em termos de contacto entre os cidadãos e os políticos, o grão-duque é a exceção que confirma a regra: não sai à rua facilmente e não é conhecido por gostar de banhos de multidão. Nessa noite, Marcelo, Henrique e a comitiva foram abordados por vários portugueses. Entre eles, um resumiu bem a situação ao dizer ao presidente que aquele passeio terá feito mais pela popularidade do monarca luxemburguês do que todos os discursos que Henrique já proferiu.

A atitude aberta e orientada para as pessoas é positiva mas, começo a partilhar as dúvidas de alguns comentadores que, mais críticos, acusam o presidente de excessos: excesso de selfies, excesso de medalhas, excesso de aparições públicas…

Tenho agora vontade de acrescentar à lista o excesso de cartas. O Presidente da República respondeu ao pedido de várias redações de meios de comunicação da diáspora que lhe solicitaram uma missiva, ou porque se comemorava o 10 de Junho, ou porque o jornal fazia anos.

Foi o caso da revista Port.com que publicou uma carta alusiva ao Dia das Comunidades e ao seu quinto aniversário, ou do jornal Contacto, no Luxemburgo, que publica uma carta aos leitores assinada pelo Presidente da República, ou ainda da revista de Paris, Lusopress, cujo fundador tem uma conhecida e pública relação com Marcelo.

E estes são apenas alguns exemplos relativos à emigração portuguesa, um Portugal que o presidente tanto respeita e, por isso, fez questão de celebrar os 10 de Junho com as comunidades, tendo começado simbolicamente em Paris, no primeiro ano do seu mandato.

Mas a (omni)presença de um Presidente submete-se também à eterna lei da oferta e da procura: se as presenças, as selfies, as condecorações e as cartas de Marcelo se multiplicam, o seu valor diminuiu. Isso quer dizer que a minha fotografia com Marcelo tirada em Paris em 2016 já desvalorizou mais do que um carro comprado na mesma altura.

No Luxemburgo, o equivalente de Marcelo é Bettel. O primeiro-ministro do grão-ducado é popular, foi o primeiro político a contar com as redes sociais para fazer campanha, e raramente recusava uma selfie ou uma conversa com um transeunte.

Xavier Bettel já não é o mesmo. Neste segundo mandato, aquele a quem continuaram a chamar “burgomestre” por causa da sua bonomia e proximidade com o povo, começou a dizer que não. Foi ouvido várias vezes durante eventos anuais a insistir: “já tiramos foto no ano passado”.

O valor das selfies com Xavier Bettel vai de novo subir no mercado…