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Carta aberta à redação da revista Visão

Recentemente deu à estampa na revista Visão um artigo sobre a Amália Rodrigues. Ao que julgo saber esse artigo é “extraído” da revista Visão Biografia.

A certo ponto o artigo diz “(…) ainda recentemente – segundo um artigo do jornal Contacto – a sugestão de atribuir o nome de Amália a uma rua no Luxemburgo foi vetada por parte de elementos da comunidade portuguesa que a consideram um símbolo da ditadura e dos famosos três F do regime (…)”.

A verdade que se impõe: não houve elementos da comunidade portuguesa a considerar, pelo menos de forma pública, que a Amália era um símbolo do fascismo.

O que foi dito, e sei-o porque fui eu que o disse (escrevi) foi que, e permito-me citar-me: “[il est] vrai qu’elle était malgré ses convictions politiques, un des trois F, ou drapeaux, du régime fasciste de Salazar” (é verdade que ela era apesar das suas convicções políticas um dos três F, ou bandeiras, do regime fascista de Salazar).

O que eu disse, na verdade é aquilo que o vosso artigo diz: “Instrumentalizada e promovida pela ditadura”.

  1. O texto do jornal Contacto que é referido pelo vosso artigo é escrito sem os cuidados que deveriam ser próprios ao jornalismo mas que raiam a escritura de crónicas de opinião com propósito de formar e não informar. Senão vejamos:
    1. Meu texto é publicado no dia 2 de Abril, na véspera da reunião do Conselho Comunal (equivalente à Assembleia Municipal) de Differdange.
    2. O texto é publicado depois de eu alertar, no dia 1 de Abril, o autor da ideia de incluir o nome de Amália Rodrigues na toponímia local de que eu me oporia publicamente a ela.
    3. O assunto da toponímia não é retirado da agenda pública da reunião (no Luxemburgo o Conselho Comunal pode ter discussões privadas, sem que estas possam resultar em decisões).
    4. O texto do jornal Contacto é divulgado no dia 14 de Maio – mês e meio depois. O texto surge na véspera da reunião do Conselho Comunal que se seguiu ao de 3 de Abril.
    5. Para a redação deste texto a autora deslocou-se a Differdange (localidade onde eu também resido) para entrevistar um membro português do Conselho Comunal (Paulo Aguiar) e um fotografo de origem portuguesa de reconhecido valor aqui no Luxemburgo (Paulo Lobo). Não se dignou a tentar contacto comigo, causador da “polémica”, tendo remetido essa tarefa para uma colega de redação. Colega essa que trabalha para a rádio do mesmo grupo e se apresenta, no início do telefonema, como “Manuela Pereira da Latina” – esta apresentação leva-me a dar o depoimento assumindo que este seria incorporado numa peça áudio.
    6. Após saber que o meu depoimento foi usado para o texto de Paula Telo Alves, e não para a rádio como eu suponha, fui procurá-lo. As minhas afirmações são truncadas e simplificadas.
    7. Pedi ao elemento da Rádio Latina que recolheu o meu depoimento que me facultasse a gravação. Disse que não o faria. Pedi ao director dos dois órgãos (Rádio Latina e jornal Contacto) que o facultasse. Disse que não o faria.
    8. A proposta de atribuir o nome de Sophia de Mello Breyner Andressen a uma rua é aprovada. (tal como eu tinha defendido no meu texto de 2 de Abril). Este evento deu origem a uma série de publicações por parte do jornal Contacto, chegando ao ponto de me tentar mesmo achincalhar por ter “grafado” (sic) mal o nome da poetisa portuguesa. Diga-se, de forma mais coloquial, que é para o lado que eu durmo melhor.

Em suma, nunca os “elementos da comunidade portuguesa” defenderam que Amália era fascista. O contestar de Amália não é “inocente” nem pretendia ser inconsequente.

A comunidade portuguesa no Luxemburgo, como é nos destinos mais tradicionais da emigração lusa, tem, no seu geral e muito por culpa dum cuidado do governo português em alterar a situação, uma imagem de Portugal cristalizada no passado. A promoção, algo tímida, que se vai vendo de outra cultura que não “o fado e a sardinha assada”, sempre imediatamente associada à mulher da limpeza e ao operário da construção, precisa de todos os apoio necessários.

A minha intenção inicial era, é e será promover a imagem de Portugal para além do estereótipo. Tenho pena que alguns não me vejam essa intenção, mais pena ainda que alguns em posições que levam a sua voz a ser ouvida não partilhem dessa minha intenção.

A campanha de que fui, e continuo, depois de reavivada pela vossa publicação, a ser alvo é do mais soez que se pode testemunhar. Não será alheio a isso o meu posicionamento político nem a minha propensão para denunciar a ordem instituída de autopromovidos representantes e porta-vozes da comunidade portuguesa no grão-ducado – mas isso seria outra história.

Impõe-se, pois, que a revista Visão corrija a mão e reponha a verdade sobre quem defendeu o quê e quando.

Mário Lobo

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.