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Ao meu pai diferente de quase todos os outros pais

O meu bom e saudoso pai, ainda que a lei da morte nos separe, continua sempre presente.

Todos os dias são nossos.

1) Ao meu querido e saudoso pai, que não precisa deste dia para me lembrar dele, deixo aqui a minha memória lavrada.

O meu pai pereceu no dia anterior ao término do primeiro período lectivo do meu primeiro ano do então chamado Ciclo Preparatório.

Fui o primeiro menino a não ter a presença física do meu pai.

No dia do pai, creio que na disciplina de Português, o professor, enquanto os outros meninos escreviam uma carta aos seus pais, mandou-me que eu escrevesse uma carta ao meu padrinho (que por sinal é meu irmão) por o meu pai não estar presente.

Sei que escrevi a carta. Não me lembro, por estranho que me parece, o que escrevi, mas não entreguei a carta.

O meu pai é sempre meu pai. Insubstituível sempre até ao fim de sei lá quê. E no final desse sei lá quê, por força do tanto amor que lhe tenho, vai continuar a ser meu pai e perdurar na eternidade, como dizia quando falava em morte.

2) A você, meu pai, que desde pequenito me deixou sem a sua presença física e o quanto isso mudou e condicionou toda a minha vida, venho hoje, mostrar indelevelmente a minha memória por você, meu bom pai. Indelevelmente e com a diferença de deixar a minha memória em letra de forma e publicamente, porque o lembro todos os dias.
Não sei onde está. Nem os meus sonhos oníricos me são concludentes para além de que anda em viagem e todos os dias o espero dum longo e incerto destino. Eventualmente estará, não sei onde, junto da mãe e da madrinha, porque a minha memória por vocês permanece intocável.

3) O dia do pai é mais um daqueles dias, dos que não gosto por serem estereotipados e com forte pendência comercial. Mas como diz Miguel Torga, temos que ajoelhar quando passa a procissão e entrar na onda, digo eu, para não sermos marginalizados.

Neste contexto e porque o meu pai apesar de ter perecido há décadas, continua diariamente na minha presente memória.

“Posto isto,” Na sequência do escopo do meu texto, não adianta escalpelizar muito, mas continuar a lembrá-lo todos os dias, sem saber onde está nem para onde hei-de direccionar a minha memória. Centro-a namesma naquilo que sempre foi a memória, pai. Exactamente memória, lembrança, ter presente o seu rosto. Sobretudo a sua humildade e honestidade.

Sem querer ser tomado por bota-de-elástico, entendo que cada filho deverá lembrar e experimentar o seu pai – se o tiver ao alcance – naquilo que ele tenha de melhor, e do que não tiver tão bom, se for possível, ajudá-lo e orientá-lo. Pois é isso a vida, o lar harmonioso, o núcleo da família. De onde tudo emerge.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)