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Antonio K.valo: um editor na contramão do obscurantismo

Formado em Comunicação Social pela Universidade de Taubaté (UNITAU) e em Moda pelo Senac RJ, após trabalhar como design gráfico e dedicar-se à moda, Antonio K.valo criou, em 2016, a editora O Sexo da Palavra, cuja principal missão tem sido publicar livros que tratam das questões LGBTQIA+, na contramão do obscurantismo rasteiro defendido pelo atual governo do país.

Pode nos contar um pouco sobre sua trajetória profissional até a fundação da editora O Sexo da Palavra?

Fiz bacharelado em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade em Propaganda pela UNITAU (Universidade de Taubaté), me formando em 2003. No mesmo ano, me mudei para o Rio de Janeiro, onde fiz especialização em Moda e Figurino pelo Senac Rio, me formando em 2004. Desde o período de faculdade, comecei a trabalhar com design gráfico nas áreas de web, cartaz, ilustração e estamparia. Quando fui para o Rio, criei minha primeira etiqueta, Colocado, focando em moda sem gênero, em peças versáteis e estampaskitsch. Em 2007, me juntei ao estilista Marcelo De Gang e formamos o atelier de alta costura e alfaiataria DeGang+Kvalo. Este período, que durou cerca de dez anos, foi intercalado com trabalhos em moda, figurino para teatro, cinema, televisão, cenário, vitrinismo e produção de moda. Criamos uma produtora chamada M.A.R. – Moda Autoral Rio – representando estilistas e etiquetas alternativas na cidade, que desencadeou na revista virtual VinteeUm Magazine, da qual fui  diretor de arte. No ano de 2015, já envolvido com a militância LGBTQIA+ do Rio de Janeiro, fui cocriador da plataforma de mapeamento da LGBTfobia em território nacional – Tem Local. A plataforma ganhou destaque em matérias de diversos jornais, como O Globo, Jornal do Brasil, The New York Times, assim como mídia televisiva, na Rede Globo, TV Brasil e web. Fomos a primeira plataforma no mundo a mapear as agressões a pessoas LGBT e com isso criamos um banco de dados de acesso universal, além de criar parceria com a Ong PelaVidda e mapear também os casos de preconceito a pessoas soropositivas. O projeto se encontra hoje somente com páginas de divulgação de matérias sobre a temática, pois se tornou inviável aos criadores originais manter o site com a tecnologia de mapeamento, sendo hoje responsabilidade do jornalista Alexsander Lepletier.
No mesmo ano, através de um encontro no congresso Desfazendo Gênero, na UFBA – Universidade Federal da Bahia, conheci o Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo, da UFU – Universidade Federal de Uberlândia, que estava envolvido numa pesquisa sobre a presença de cenas sexuais homoeróticas na literatura brasileira. A pesquisa dele estava muito avançada, tendo títulos nunca reeditados, como o caso d’O menino do Gouveia, de Capadócio Maluco, considerado o primeiro conto pornográfico homoerótico publicado no Brasil, em 1914, pela revista Rio Nu. Perguntei a ele o que seria feito desta pesquisa e ele me respondeu, em tom de humor, “apenas relatórios”. Ali vi uma oportunidade em aliar o meu histórico de design gráfico e editoração com a militância LGBTQIA+. Assim nasceu, em 2016, a editora O Sexo da Palavra, homônima à pesquisa realizada pelo professor na UFU.

O que o motivou a criar uma editora voltada para publicações sobre gênero e sexualidade?

A motivação inicial foi a curiosidade sobre a temática contrapondo o senso comum que insiste em dizer que “essas coisas não existiam tempos atrás”. Quando me deparei com textos desde o século XIX tratando, principalmente, de homoerotismo, achei que era uma oportunidade de trazer à tona tais publicações para o nosso tempo, realizando duas ações diretas: a primeira em enfrentar o apagamento histórico que a comunidade LGBTQIA+ passa, desde sempre, sendo renegada em diversas áreas, aqui, no caso da literatura. A segunda, em poder fomentar um espaço político da produção literária, seja ela acadêmica ou não, na editoração de títulos que as grandes editoras renegam ou produzem em forma de gueto em pequenos selos sem destaque. Além disso, o acesso a pesquisadores como o Prof. Dr. Fábio Figueiredo Camargo e seus pares, como os membros do GT da Anpoll Homocultura e Linguagens e os desdobramentos em diversos congressos e simpósios, me traz tanto material inovador na temática, como público ávido pelo consumo, já que somos praticamente os únicos no Brasil com esse foco.

Que desafios têm sido maiores na consolidação da editora?

O maior desafio sempre será o apoio financeiro para manter as publicações com tiragens significativas e distribuição efetiva. Por tratarmos do empreendimento de forma alternativa à lógica atual de editoração e comercialização de livros no Brasil, criamos subterfúgios ao mercado, criando produtos acessíveis em venda on-line e em eventos, assim como acesso facilitado e financeiramente atrativo para autores, organizadores e pesquisadores. Além disso, para o que podemos chamar de consolidação da editora, sofremos sempre com a censura de nosso material, por parte do enorme conservadorismo que enfrentamos nos dias atuais. Seja ele direto, criando um novo apagamento aos nossos produtos pela temática que trabalhamos, ou velado, tratando nossas publicações como uma literatura inferior, a editora já teve até as redes sociais bloqueadas sob alegação de propagação de material de pedofilia. Porém, em paralelo, temos uma grande aceitação do nosso público-alvo e temos hoje um projeto coerente e focado, sendo uma editora nova, com três anos, recém-completados, mas com aumento significativo de público-leitor em cada publicação.

Como tem sido o resgate de textos homoeróticos produzidos no Brasil desde o século XIX?

O resgate parte sempre de uma pesquisa minuciosa em torno de uma publicação, um autor ou um acervo. Graças ao empenho de grandes pesquisadores brasileiros, temos hoje um time de parceiros envolvidos com a temática em torno de gênero e sexualidade, indo atrás de novas velharias, como costumamos brincar. Mas não basta ter acesso a um acervo, é preciso um trabalho de detetive para encontrar raridades, porque não é todo texto que se torna interessante e nem toda publicação que merece uma nova roupagem. Para isso, construímos coleções que abarcam certos pontos de convergência entre as obras, para que ela tenha um fio condutor e um diálogo sincero e positivo com o leitor. Outro ponto importante é chamar cada vez mais pesquisadores que façam a curadoria das coleções vigentes, assim como receber propostas de novos projetos. Assim podemos oferecer ao público um material de qualidade e com embasamento teórico para que essas obras voltem a ter sentido na atualidade. Além disso, o trabalho do design de cada objeto-livro é pensado de forma única, criando identidade e apelo visual, que já são marcas da editora e responsável pela atualização desses textos.

A que se deveu o relançamento do romance “Um homem gasto”, considerado o pioneiro a tratar da homossexualidade, mesmo que num enfoque preconceituoso, pautado pelo cientificismo reinante na segunda metade do século XIX?

Um homem gasto, de Ferreira Leal, surgiu para nós a partir de pesquisa do Dr. Helder Thiago Maia, que assina o prefácio crítico da edição. O relançamento, que passou por curadoria do Prof. Dr. Mário César Lugarinho, da Universidade de São Paulo, se dá fundamentalmente pelo marco histórico e a temática da coleção Decadentismo, em que está inserido o volume. Além do viés preconceituoso, que dificilmente veremos diferente na produção literária do século XIX, há de se aprofundar sobre o impacto que a obra tem em seu tempo e o quanto pode ser um novo horizonte para os pesquisadores da área a retomada do texto. Se tínhamos uma ideia de que Bom crioulo, de Adolfo Caminha, era o primeiro romance a tratar de homoerotismo no Brasil, em 1895, o panorama muda ao se encontrar Um homem gasto, publicado uma década antes. E ainda alerta para novos desafios. O que será que foi produzido entre as duas obras? Quando tratamos de apagamento histórico, é preciso traçar estratégias que indicam a possibilidade de haver algum texto com a temática, tentar entender o motivo do sumiço do mesmo e ainda recriar o momento histórico em que ele está inserido. Por mais óbvio que Um homem gasto possa ter sido esquecido, dada a inserção da homossexualidade masculina no romance, é importante também ressaltar as críticas que o autor recebe em seu tempo e, mesmo hoje em dia, sobre a qualidade do livro. Isso tudo reunido, cria tanto a atmosfera em torno de um texto esquecido como a possibilidade da retomada do mesmo. Quanto à temática cientificista, o recorte da coleção Decadentismo vai esbarrar o tempo todo nessa questão e é daí que ela cresce e busca novos pesquisadores, textos e autores.

Quais obras homoeróticas se tornaram novamente acessíveis aos leitores, hoje constantes no catálogo de O Sexo da Palavra?

Hoje estamos com 17 obras lançadas e acessíveis para compra em nosso site. O primeiro título, fruto da coleção Sexo Raro, é O menino do Gouveia, de Capadócio Maluco, 1914. Ele é praticamente o carro-chefe da editora, pois sempre foi muito comentado por se tratar do (possível) primeiro conto pornográfico homoerótico publicado no Brasil, ainda por cima numa revista heterossexual chamada Rio Nu, e nunca reeditado. Da mesma coleção, temos o primeiro texto de João do Rio, na época ainda assinando como Paulo Barreto, Impotência, de 1899, também nunca reeditado, mesmo se tratando de um autor que tem diversas reedições, assim como coletâneas e trabalhos realizados com certa frequência. Ainda se tratando de reedições com a temática do homoerotismo, temos o já citado Um homem gasto, 1885, e o recém-editado, a ser lançado no fim de fevereiro, Um animal de Deus, 1967, romance de Walmir Ayala. Também editamos textos críticos e inéditos com o mesmo tema. De obras críticas, temos O estilo Sui Generis de vida Gay, 2018, de Marcus Antônio Assis Lima, a respeito da primeira revista queer a circular no Brasil entre os anos 1990 e 2000 e Herdeiros de Sísifo, 2019, de José Luiz Foureaux de Souza Jr, em que o professor aposentado da Universidade Federal de Ouro Preto, reúne seus trabalhos sobre homoerotismo propondo como ferramenta da análise literária. De obras de ficção, temos o livro de contos de Luiz Fernando Braga, Professor Dorothy, lançado em 2019, e a reedição comemorativa de 30 anos de Satori, de Horácio Costa, também de 2019. Os outros títulos, disponíveis no site da editora, englobam sexualidade e crítica literária sem o enfoque específico do homoerotismo.

Especialmente de uma década para cá, as pesquisas acadêmicas sobre gênero e sexualidade ampliaram-se de modo significativo, na contramão do discurso homofóbico que ajudou a eleger o atual presidente do país. A que devemos tal fato?

Os estudos de gênero e sexualidade no âmbito acadêmico seguem o fluxo normal de um assunto começar a ser discutido em alguns espaços, até ganhar notoriedade e destaque. Não foi diferente com as questões raciais ou, indo mais atrás, à criação do cânone da literatura brasileira. Isso se dá por uma equação simples de resolver. O pesquisador se envolve no tema, entra nas universidades como professor, encontra pares que estejam com as mesmas questões e acaba criando relações ampliadas pelos seus orientandos, que darão continuidade ao trabalho, fazendo a roda girar. Porém, em se tratando do avanço nas pesquisas desde 2000, temos que nos guiar para o cenário político brasileiro. Após eleição de Lula, em 2002, uma série de projetos ligados à universidade entraram em ação e com isso pessoas negras, periféricas e excluídas começaram a ocupar o espaço de pesquisa, propositalmente engajados com suas questões. E isso é visível entre a comunidade LGBTQIA+. Em paralelo, houve diversas ações midiáticas descreditando essas políticas afirmativas e questionando a permanência dessa população no ambiente universitário. Com objetivos escusos, a imagem do pesquisador brasileiro foi pichada por diversos órgãos que nem são atrelados à educação. Isso é combustível para o brasileiro fascista, que sempre existiu, mas mantinha sua posição velada. E o resultado é o que vimos a partir do golpe de estado sofrido pela presidenta Dilma em 2016. Porém, agora nós estamos empoderados e ocupando diversos espaços. Eles agem de todas as formas para nos desmerecer. Cabe a nós continuar resistindo e ensinar às novas gerações que nem sempre houve acesso para eles e que viemos da luta, então continuemos lutando.

Pode nos antecipar o que está por vir neste 2020?

O ano de 2020 já começa com o lançamento de Um animal de Deus, de Walmir Ayala. O romance, pouco conhecido do autor, trata de um personagem que se apaixona por outro homem e segue sem a concretização desse amor, trazendo à tona a homofobia da época. Ayala ficou muito conhecido como crítico de artes e literatura, assim como por suas obras infantis. Um animal de Deus é o único romance em que ele se abre para a homossexualidade, discutida em dois diários lançados por ele e em algumas poesias. Dando continuidade à coleção Decadentismo, o próximo título é considerado o primeiro romance português a tratar de homoerotismo e vem com prefácio crítico produzido pelo curador da coleção, Prof. Dr. Mário César Lugarinho. Trata-se de O barão de Lavos, de 1898, de Abel Botelho. O romance trata do barão apaixonado por Eugênio, um rapaz pobre que será o desencadeador de toda a desgraça do protagonista. A coleção segue com mais três títulos ainda para este ano. No prelo, temos a nova edição de A vida suspensa, livro de contos de Fábio Figueiredo Camargo, e Escrever o pai é escrever-se, do mesmo autor, a respeito de Lúcio Cardoso. Editaremos ainda uma coletânea de artigos sobre cinema queer e adaptação, fruto de chamada pública realizada pela editora, assim como dois títulos de Octávio de Faria. A coleção Sexo Raro continua com Dança de Centauras, compilado de poemas de Francisca Júlia. Outros títulos estão em negociação com pesquisadores e detentores de direitos autorais, além de projetos em parceria, que em breve serão divulgados.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP), professor, ator e jornalista.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.