Angela Merkel partilha desafios políticos e deixa apelo aos jovens portugueses
A chanceler emérita da Alemanha, Angela Merkel, esteve à conversa com alunos da Universidade Católica Portuguesa, no dia 23 de setembro, abordando o presente e o futuro da União Europeia e recordando alguns dos momentos mais marcantes do seu percurso político.
De acordo com o site da Universidade Católica, na sua intervenção inicial, a chanceler emérita alertou para a importância de defender as democracias, apontando o caminho da diplomacia e o reforço do poder dissuasor da guerra. “Muitas vezes, considero que aqui se atua pouco”, apontou. “A democracia implica meios de comunicação livres e justiça independente. Para que consigamos alcançar tudo isso, não é fácil”, sobretudo tendo em conta a predominância da inteligência artificial e a crescente desinformação, lembrou também Angela Merkel, acrescentando que “a democracia está sob elevada pressão porque os políticos comunicam muitas vezes de uma forma diferente.”
A unidade da União Europeia foi outro dos pontos abordados no seu discurso. “Temos de estar cientes daquilo que nos une e tem de existir a vontade de não cairmos nos nacionalismos”, refere.

De seguida, os estudantes tiveram a oportunidade de colocar algumas questões a Merkel. Os jovens quiseram saber, por exemplo, quais foram os seus maiores desafios e decisões mais difíceis que tomou enquanto chanceler e o que teria feito de diferente durante os seus mandatos. Lidar com a crise financeira de 2008, decidir sobre a permanência da Grécia na Moeda Única e a pandemia, que obrigou a “decisões radicais”, foram períodos difíceis, reconheceu. Além disso, assumiu não ter conseguido “entusiasmar as pessoas pela política climática”.
Questionada sobre a sua forma de decidir e liderar, revelou que na sua secretária tinha um dado com uma palavra em cada face que formava a frase “a força está em manter a calma”, o que foi útil para as suas decisões. Na sua perspetiva, “descobrir o momento certo para atuar é uma das características mais importantes de um político”.
Entre os restantes temas discutidos estiveram as posições de Donald Trump e os seus efeitos na economia mundial, a relação da União Europeia com os partidos eurocéticos, a possibilidade de adesão de países associados, como o Canadá, bem como os resultados recentes de partidos extremistas na Alemanha e a crescente expressão de forças populistas.

“Se temos um mundo em que só há preto ou branco, vai haver muito poucas pessoas a ter razão. Temos de estar dispostos a viver com todas as cores. É o mais complicado, porque temos a nossa bolha e estamos convencidos de que nós é que temos razão. Cada vez temos menos vontade de falar com alguém que tenha uma opinião divergente”, salientou.
E quando o tema é o papel dos jovens na Europa de hoje, Merkel considera que “há desafios grandes”, nomeadamente “o novo mundo dos media, como informar-se, como distinguir mentiras e factos, como conseguir aguentar a diversidade de opiniões”. “Acredito que só conseguiremos manter a democracia nos nossos países se a geração jovem lutar pela democracia. Isso quer também dizer que lutem pela liberdade de opinião, pelos direitos das minorias. É isso que hoje parece uma tarefa difícil para alguns”, frisou.

“Desejo-vos muito sucesso nos estudos. São todos muito necessários para as nossas sociedades. Vocês são o futuro. Sejam corajosos porque precisamos da vossa coragem”, disse no final da sessão com os estudantes.