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Adriana Costa Santos: uma portuguesa ao lado dos refugiados em Bruxelas

Adriana Costa Santos, de 23 anos, trocou Lisboa por Bruxelas, para ajudar na crise dos refugiados porque recebeu um telefonema de uma amiga em Bruxelas. “Como ela sabia que eu me preocupava com esta questão dos refugiados e sabia da minha intenção de fazer um ano sabático, propôs-me que viesse um mês colaborar com a plataforma, e ficava alojada em casa dela. Comprei logo um voo e fui. Foi a minha oportunidade de fazer alguma coisa em concreto”, conta Adriana, admitindo que tudo foi feito “à pressa”. “Falei com a minha amiga e depois disse aos meus pais que ia para um campo de refugiados em Bruxelas”, contou ao jornal Observador.

Quando Adriana aterrou em Bruxelas, a plataforma já tinha uma estrutura organizada e o campo de refugiados já tinha sido praticamente todo desmantelado, com a maioria dos sírios e iraquianos a verem os seus processos de integração relativamente avançados. Eram precisos voluntários para garantir o funcionamento do apoio a estas pessoas no processo. “Apareci lá um dia e supostamente era preciso inscrever-me num grupo de Facebook, por isso mandaram-me ir preencher o formulário. E eu respondi-lhes: Eu vim de Portugal de propósito para aqui, não me mandem de volta para o Facebook.”

Ficou a trabalhar na receção do centro de acolhimento da plataforma, numa altura em que os refugiados que chegavam a Bruxelas eram sobretudo sírios e iraquianos. “As coisas desenvolveram-se e entrámos numa fase de maior integração. Era uma ajuda mais básica. Ajudar a encontrar casa, trabalho”, recorda a jovem portuguesa.

“Para já, não pretendo voltar a Portugal”, assume. Até porque se no início Adriana era “uma peça do puzzle”, agora “a responsabilidade tornou-se enorme”. Primeiro, com o projeto das equipas da manhã, agora com a coordenação dos alojamentos.

Quando começou o mestrado — em Antropologia, na Universidade Livre de Bruxelas –, assumiu também a gestão dos voluntários da plataforma. Passou a estar menos no terreno e mais agarrada a folhas de Excel. “Sempre que lançávamos uma iniciativa, eu fazia um apelo, recrutava voluntários, convocava-os para um briefing e depois arrancávamos com o projeto. No início eu ainda estava com eles, mas depois havia sempre um voluntário que se destacava e que ficava a liderar a equipa. Nessa altura, eu saía de cena”, lembra.

A coordenação dos alojamentos noturnos, contudo, absorveu-lhe grande parte do tempo, e acabou por passar a gestão dos voluntários para uma outra colega. Também o mestrado está “em standby” devido à falta de tempo, mas Adriana diz que a família entendeu. “Eu disse aos meus pais que pus o mestrado em standby por causa disto. O que eu lhes expliquei foi que é isto que eu quero fazer da minha vida. Entre escrever uma tese e ler artigos sobre refugiados e ter uma experiência de campo, ter contacto com a realidade desta forma, viver este choque cultural, isto é muito melhor”, diz Adriana.

Até porque, como vai repetindo, ainda tem muito tempo para concluir o curso. “Eu tenho 23 anos. Se não acabar o mestrado neste ano acabo no ano que vem. Não estou propriamente com pressa. Ainda se não estivesse a aprender nada… Mas estou”, remata.

O projeto da rede de alojamentos na cidade também poderá ter os dias contados — pelos melhores motivos. A mais recente vitória negocial da plataforma foi a cedência, por parte do governo belga, de um edifício onde poderão ser alojadas dezenas de pessoas. Foi uma vitória, mas Adriana não quer já festejar. Há muito trabalho a fazer. “O Estado deu-nos acesso a um edifício, com renda e despesas pagas. Mas é só. Agora precisamos de voluntários para lá estar em permanência, precisamos de material. Estamos a começar esse processo agora”, conta.

O edifício, um antigo prédio de escritórios nos arredores da cidade, perto do aeroporto, “não é propriamente um sítio para dormir”, e ainda está por mobilar. Por isso, ainda ninguém dorme lá. “Não queremos começar um projeto sem condições para tal, sem ter tudo pronto”, destaca. Depois de recrutar voluntários disponíveis para assegurar o acolhimento e a segurança do edifício, é também preciso recolher camas, lençóis, mantas, toalhas, duches e todo o tipo de material necessário para equipar o edifício.

Para já, está a correr bem. A primeira campanha lançada foi para comprar material para montar os duches. Em quatro horas, a plataforma conseguiu recolher 10 mil euros. A abertura do edifício poderá estar, portanto, para breve. Enquanto isso, Adriana continuará a estar todas as noites às 20h00 no parque Maximilien, com o telemóvel, a coordenar o alojamento de mais 300 refugiados, que ali vão continuando à espera.