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A revolta social que atravessa o mundo ou o princípio do fim do capitalismo

© OGBL

Há um fio vermelho que atravessa as ruas do mundo. De Lisboa a Bruxelas, de Paris a Belgrado, do Brasil aos Estados Unidos, da Índia à Tailândia, multiplicam-se as manifestações contra o autoritarismo, a extrema-direita e o fascismo, bem como contra a erosão da democracia. A luta pela habitação e pelos direitos sociais, junta-se à defesa das liberdades fundamentais como o direito à habitação e melhores condições de vida. São combates distintos, nascidos de realidades diferentes, mas cada vez mais difíceis de separar.

O que está a acontecer? Eu quis mudar a lente focal e aumentar o grande plano para não me concentrar apenas no exemplo da França, do Brasil ou de Portugal. 

Tenho a convicção que estamos perante o momento em que milhões de pessoas começam a reconhecer o que durante demasiado tempo lhes pareceu inevitável: o sistema em que vivemos promete prosperidade, mas produz insegurança; proclama liberdade, mas condena muitos à dependência económica; celebra a democracia, enquanto a concentração da riqueza ameaça esvaziar o poder de decisão dos cidadãos. Estamos a viver o princípio do crepúsculo do capitalismo, sobretudo o do seu lado desumano, selvagem e destrutivo, como existe hoje.

O capitalismo transformou-se num ‘ouroboros’, a antiga serpente que devora a própria cauda e que existe em muitas mitologias antigas. Na sua busca incessante de acumulação, a serpente consome as condições que sustentam a sua própria existência e os que a alimentam: o trabalho digno, a coesão social, os recursos naturais, a confiança nas instituições, mas pior do que tudo, o próprio ser humano, considerado dispensável, como se fosse apenas uma roda dentada da gigante engrenagem que hoje é o capitalismo neoliberal. 

Eu chamo-lhe de ‘ourobouros’ porque o capitalismo devia servir o ser humano e não servir-se dele, nem explorá-lo até o fazer cair na mais indigente miséria. Ora se a serpente, o capitalismo, devora vorazmente o próprio fundamento para o qual foi criado, que é servir o ser humano e criar condições de vida melhores para este, é não só omnívoro, mas antropófago, e para que servirá se já não tiver a quem servir? 

A habitação é um direito, não uma transação 

A habitação é um direito fundamental inscrita nas constituições de muitos países, e na carta dos direitos humanos da ONU. Mas de que serve estar plasmada na constituição se os governos a ignoram olimpicamente, argumentado que o mercado é livre. Hoje, a habitação tornou-se um ativo financeiro, as cidades convertem-se em mercadorias, empurram os pobres e a classe média para zonas-dormitório, e milhões de pessoas descobrem que trabalhar já não chega para ter uma vida digna, por vezes nem para sobreviver.

Em Espanha e Portugal, a crise da habitação e os protestos contra a austeridade revelam a exaustão de quem já não aceita pagar sozinho a fatura de um modelo económico capitalista sem limites cada vez mais desigual e que já revelou claramente quem favorece: os ultra-ricos, e quem definitivamente não favorece: todos os que sobram, ou seja, nós! 

No Luxemburgo também houve esta semana um protesto de 13 organizações de jovens, incluindo juventudes partidárias, juventudes sindicais, associativas, estudantis a que se juntaram muitos outros militantes de várias sensibilidades que, numa convergência de lutas, exigiram em alto e bom som que o governo, o parlamento e todos os partidos do espectro político façam mais contra a crise da habitação, acusando-os de nada terem feito de concreto nessa matéria nos últimos vinte anos.

Nos EUA, o movimento ‘No Kings’ denuncia a concentração de poderes e as derivas autoritárias, protofascistas, dizem os analistas políticos. No dia 4 de novembro, os EUA vão a eleições de meio-mandato, para eleger os representantes do Congresso e alguns governadores estaduais. Se os republicanos perderem a maioria é o futuro do tirano laranja Trump na Casa Branca que está em jogo, e pode até vir a ser destituído e detido por corrupção, violação da Constituição americana, violação da lei americana e do direito internacional, por crimes de guerra, etc. 

Em Israel as eleições legislativas desta semana fizeram tremer Netanyahu, mas é sinistro constatar que metade da população israelita ainda o apoia, como se o genocídio do povo palestiniano em Gaza, na Cisjordânia e no Líbano, que constituem crimes contra a humanidade perpetrados por Netanyahu, fossem uma mera nota de rodapé.

No Brasil, a resistência ao bolsonarismo mobilizou forças em defesa das instituições democráticas e Lula foi reconduzido domingo na Presidência.  

Após um longo período de relativa calmaria devido à repressão política, milhares de venezuelanos voltaram a sair às ruas da capital, Caracas, e de outras províncias do país, exigindo eleições livres e o fim do controlo americano ao petróleo venezuelano.

Na Índia, agricultores, trabalhadores e movimentos cívicos enfrentam políticas que consideram ameaçar os seus direitos. 

Em Itália, a contestação às políticas governamentais de Giorgia Meloni recupera a memória antifascista e as vozes começam a fazer ouvir-se. 

Na Sérvia, no domingo também, um movimento que começou com um protesto estudantil há dois anos constitui-se em partido e conquistou a maioria absoluta no parlamento, forçando Alekansdar Vučić (Vouchich) a deixar o poder, após 14 anos de deriva nacionalista. 

Na Hungria, a derrota eleitoral de Viktor Orbán, em abril de 2026, pôs fim aos seus 16 anos no poder e prova que até os regimes autoritários podem ser derrotados nas urnas.

Em França, o último mês ficou marcado por uma vaga de protestos, que juntou estudantes, sindicatos e trabalhadores contra o custo de vida, a degradação dos serviços públicos, a deterioração das escolas e das universidades, e a violência policial, o que fez da defesa dos direitos sociais e das liberdades democráticas uma bandeira comum contra o macronismo, que apenas tem servido para enriquecer os ultra-ricos. Nas ruas, a contestação estendeu-se também contra a extrema-direita e às restrições ao direito de manifestação, revelando uma França dividida, uma profunda crise social, o que alimenta a desconfiança nas instituições e torna cada vez mais urgente a defesa da democracia.

Estes são apenas alguns dos protestos sociais, em que os jovens são sempre uma força mobilizadora, que têm acontecido nas cinco partes do mundo contra as derivas autoritárias, nacionalistas ou fascistas e por melhores condições de vida, da Venezuela ao Canadá, passando por Marrocos, Tailândia, Grécia, Albânia, Hungria e Bélgica, entre outros. O mundo está a dizer basta a este modelo económico que tudo destrói. 

Convergência das lutas contra o capitalismo

Isto não significa que todos estes movimentos partilhem a mesma ideologia ou que constituam uma frente organizada contra o capitalismo. Mas as suas reivindicações convergem num ponto essencial, a luta contra o capitalismo, isto é, a recusa de aceitar que a economia se sobreponha à democracia, e que o lucro prevaleça sobre a dignidade humana.

É neste terreno fértil das frustrações sociais e das desigualdades económicas que crescem as tentações autoritárias e a extrema-direita assoma de olho arregalado o povo descontente para manipular a turba que vocifera. Porque o perigo está também na resposta a estes protestos. 

Quando o sistema deixa de oferecer esperança, os discursos nacionalistas e fascizantes procuram bodes expiatórios e transformar a revolta social numa guerra contra os mais vulneráveis, os imigrantes. A extrema-direita e quem dela se alimenta, em vez de questionar a concentração da riqueza, aponta o dedo aos estrangeiros, aos imigrantes, às minorias e aos que menos têm. O autoritarismo e o fascismo surgem, assim, como a solução à crise, “é preciso ordem” , “não é a rua que governa!”, não é isso que se ouve contra as manifestações pela habitação? Mas o único objetivo da extrema-direita e do fascismo é o poder, e assim que o alcançam já não o querem largar, veja-se os exemplos da EUA e da Rússia. Para se perenizarem no poder, restringem direitos, cortam liberdades e na liberdade de imprensa, fecham os sindicatos. Porque um bom trabalhador é um trabalhador ocupado, calado e alheado da realidade. Nós, portugueses, já vivemos isso e conseguimos extirpar-nos dessa narrativa nefasta há 50 anos. Não é para voltar a mergulhar nessa noite escura outra vez, pois não?

A defesa da democracia, o direito à “paz, o pão, habitação, saúde, educação”, como canta Sérgio Godinho, devem assim continuar a ser a nossa luta diária. E não é uma luta de ‘esquerdalhas’, é a luta legítima dos trabalhadores, do povo, por melhores condições de vida. A luta contra o fascismo e a extrema-direita é apenas uma das expressões dessa mesma exigência: devolver às pessoas o poder sobre as suas vidas.

O fim dos ‘fachocratas’ e o futuro pós-capitalista

Assisto a estes movimentos todos como sendo um dos últimos estertores do capitalismo, que já mostrou só saber destruir, como aconteceu com a crise das sub-prime em 2008 e a onda de choque global que provocaram. 

A História não oferece respostas antecipadas, mas uma coisa, porém, é certa: quando a serpente começa a devorar-se a si própria, a questão já não é apenas saber quanto tempo vai sobreviver. É saber o que nascerá das suas cinzas. E se seremos capazes de construir uma sociedade com assente em novas fundações, num novo paradigma, com o ser humano no centro das preocupações, em que a liberdade não seja um privilégio, em que a habitação não seja um luxo e em que a democracia não termine debaixo do capacho dos interesses económicos e da gula de poder dos ditadores e de outros ‘fachocratas’. 

José Luís Correia

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