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A geopolítica a contaminar o mundial de futebol

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O mundial de futebol de 2026 foi uma grande tormenta. Houve sempre demasiado ruído, muita interferência política, imensos casos deploráveis, excessiva presença da geopolítica a contaminar o mundial. Nada disto foi bom para o espetáculo sensacional que é o futebol, nem para a FIFA, que está sempre a sair com manchas destes grandes eventos, como aconteceu no Qatar em 2022 e agora voltou a acontecer.

A FIFA tem um slogan que deveria ser a sua bússola: “O futebol une o mundo”. Era assim que deveria ser. Mas o que se viu foi o contrário, por causa das tensões geopolíticas e das inimizades do Presidente norte-americano, que se vão somando a bom ritmo. Entretanto, enquanto decorriam os jogos, o ICE acelerou a caça aos imigrantes, precisamente numa altura em que os estrangeiros disfrutavam da grande festa do futebol.

Sem olhar a regras nem conveniências, Trump puxou de mais uma das suas tiradas inusitadas, afirmando que gostaria de fazer outra vez o mundial nos Estados Unidos, roubando-o a Portugal, note-se… mas sem o Canadá nem o México, o que prova a contrariedade de ter tido ao seu lado Marc Carney e Claudia Sheinbaum na entrega do troféu a Espanha.

Foi muito feia a discriminação da seleção do Irão, país com o qual os Estados Unidos estão em guerra, atacando assim também a economia mundial. A seleção iraniana teve de assentar as suas bases em Tijuana, no México, sendo obrigada a percorrer grandes distâncias antes de cada jogo nos Estados Unidos, o que obviamente é muito penalizador física e psicologicamente.

Um árbitro da Somália, Omar Artan, foi impedido de entrar nos Estados Unidos só por ser da Somália, tal como muitos adeptos de vários países, só porque Donald Trump os colocou na sua lista dos ódios pessoais. A estes e outros casos, o presidente da FIFA, Gianni Infantino, nada disse, para não aborrecer, supõe-se, o seu amigo Trump a quem, não se sabe a propósito de quê, deu um Prémio da Paz em dezembro passado. Além disso, coisa inédita, a pedido de Trump, retirou um cartão vermelho a Folarin Balogun, jogador dos Estados Unidos, o que levou os deputados do Parlamento Europeu a pedir a abertura de um inquérito.

Israel, que destruiu Gaza e continua o genocídio do povo Palestiniano perante o silêncio do mundo, mostrou-se um fervoroso apoiante da Argentina, agora governada pelo desmesurado ultraliberal libertário Javier Milei, também amigo de Trump. E lá apareceram adeptos argentinos a mostrar uma bandeira de Israel, polarizando o espetáculo. E ainda houve jogadores argentinos a desfraldar uma bandeira a reivindicar as Ilhas Falklands, sob domínio britânico, o que deixa antever algum frisson diplomático, já que Milei tem insistido neste assunto.

Viu-se nas televisões e nas redes sociais que a vitória da Espanha foi saudada com entusiasmo no mundo inteiro, incluindo em Gaza. Donald Trump quis depois ficar para a posteridade na foto da vitória, que, como é normal, era só para a equipa espanhola. Mas os espanhóis retiraram-no da foto, o que certamente terá sido um golpe violento no seu inchadíssimo ego, a pensar nos muitos milhões de pessoas que o estariam a ver.

Se a tudo isto juntarmos os preços exorbitantes dos bilhetes que transformaram um desporto popular num espetáculo para as elites, em que a média dos ingressos foi de 12 mil dólares e o bilhete mais caro para a final terá custado 180 mil dólares, então vemos como o grande espetáculo do futebol foi totalmente abalroado.

Quanto à prestação de Portugal, o melhor é nem falar no assunto. Antes do início do mundial até parecia que a final estava garantida, como se isso bastasse para ganhar jogos. Mas logo no primeiro jogo percebeu-se que o favoritismo acabava ali, tal foi a falta de inspiração da seleção, muito longe da alegria que os portugueses e a diáspora gostariam de ter. O melhor mesmo, no próximo mundial, é não antecipar vitórias, para a desilusão não doer tanto. 

Paulo Pisco

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