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A figura ímpar de Francisco Escobar

A Maria Augusta e Rosaura de Escobar

No ano de 1898, Euclides da Cunha chegava a São José do Rio Pardo, interior de São Paulo, para dirigir os trabalhos de reconstrução da ponte sobre o rio que dá nome àquela cidade. E foi ali que conheceu um ilustre mineiro de Camanducaia, figura singular com quem estabeleceria sólida amizade.

Naquele longínquo ano, Francisco Escobar era o intendente municipal de São José do Rio Pardo, designação então usada para indicar o cargo de prefeito.

Foi o saudoso euclidianista Olímpio de Sousa Andrade, em seu História e Interpretação de Os Sertões, quem lapidarmente sintetizou o caráter desse grande brasileiro: “Era a bondade e a sapiência em pessoa…tudo sabendo, informando tudo sobre qualquer assunto, a qualquer momento, como se fosse uma enciclopédia…a esse feitio íntimo, composto com o que há de melhor na contextura da bondade e do saber e inteiramente despido de vaidade, é que se deve o fato de vir o seu nome sempre em destaque quando se trata da elaboração de Os Sertões, inclusive na lembrança de Euclides, que o apontou como seu melhor colaborador, evidentemente no sentido do prestígio e da cultura do amigo.”

Nascido a 8 de dezembro de 1865, aprendeu Francisco Escobar com sua irmã Ana as primeiras letras e a música. Aos 13 anos já conhecia em profundidade o latim, conforme nos ensina seu biógrafo, Manuel Casasanta.

Ainda adolescente entregou-se de modo apaixonado às causas abolicionistas e republicanas, iniciando-se na imprensa como fundador e diretor do primeiro jornal de Camanducaia, a Folha do Povo. Pouco depois, por orientação de João Pinheiro, fundou em sua cidade natal o Clube Republicano.

Logo após a Proclamação da República, deixou Camanducaia rumo a São José do Rio Pardo, onde entre 1896 a 1899 foi intendente municipal e fundou o Clube Democrático Internacional Filhos do Trabalho, defensor das idéias socialistas.

Ao terminar seu mandato em São José do Rio Pardo, após rápida passagem por São Paulo, retornou a Camanducaia, tornando-se vereador. Em seguida, foi nomeado por Wenceslau Brás prefeito de Poços de Caldas, ali fazendo uma administração moderna e progressista. Seu último cargo público foi o de senador por Minas Gerais, infelizmente interrompido por sua morte, a 30 de dezembro de 1924.

Como bem acentuou Manuel Casasanta, Francisco Escobar foi “advogado, administrador, político, intelectual, artista, em resumo…, marcou a presença de um engenho singular, disfarçado sob a capa do estudante crônico.” Sua vastíssima erudição o permitia, de acordo com Francisco Venâncio Filho, discorrer sobre as teorias de Einstein, Freud, Bergson, Croce, William James, dentre tantos outros. Leitor dos clássicos greco-latinos no original, profundo conhecedor do português arcaico, foi de Escobar que Afonso de Taunay socorreu-se para traduzir documentos quinhentistas, fontes para a elaboração de seu São Paulo no Século XVI. Bibliófilo, chegou a possuir acervo com sete mil volumes, numa época em que a circulação de livros, sobretudo no interior do país, era extremamente restrita. Cultor da música, tinha em Bach e Beethoven seus mestres maiores. Político de honradez raramente igualada, ao morrer o único bem que deixou foi a casa em que residia, em Poços de Caldas.

Monteiro Lobato, outro caro amigo seu, com exatidão disse: ” Em Escobar se reuniam todas as qualidades de coração e todos os valores de espírito, sem que ele jamais exibisse nenhum.” Em A Vida Literária no Brasil 1900, Brito Broca assim se referiu: “Uma grande e bela amizade, profundamente criadora foi a de Francisco Escobar e Euclides da Cunha. Basta dizer que sem a intervenção solícita, protetora e estimulante de Escobar, talvez Os Sertões não viesse a ser escrito.”

Sobre o autor do artigo: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista.

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.