Há uma contradição no centro do projeto europeu: a Europa quer ter voz própria no mundo, mas continua a depender de outros para produzir muitos dos meios que sustentam a sua segurança. Essa dependência não é apenas uma questão de compras. É uma vulnerabilidade política. Quem não consegue fabricar, reparar ou repor equipamento essencial acaba por depender da disponibilidade, das prioridades e das decisões de terceiros.
Por isso, a Europa precisa de fábricas de defesa. Não para transformar a economia numa máquina de guerra, mas para deixar de confundir paz com ausência de preparação. A dissuasão só é credível quando existe capacidade para agir; e a solidariedade entre aliados só resiste às crises quando há meios para a pôr em prática.
A guerra na Ucrânia tornou visível uma lição que deveria ser elementar: equipamento não aparece por decreto quando passa a ser urgente. Linhas de produção, trabalhadores especializados, fornecedores, matérias-primas e contratos estáveis demoram anos a construir. Desmantelar essa capacidade em tempo de tranquilidade e tentar recuperá-la em plena crise é uma forma dispendiosa de improvisação.
A resposta, porém, não pode ser uma coleção de fábricas nacionais a competir entre si, nem uma corrida a produzir sem estratégia. A Europa deve planear em conjunto: identificar o que realmente precisa, distribuir a produção por países, encomendar em escala e evitar que cada Estado desenvolva versões incompatíveis do mesmo equipamento. Uma base industrial comum daria mais previsibilidade às empresas, reduziria desperdícios e permitiria repor recursos com maior rapidez.
Portugal deve estar nessa mesa — não como espectador, nem com a ambição irrealista de fabricar tudo. O país deve escolher onde pode acrescentar valor e construir capacidade duradoura: munições e componentes, manutenção e modernização de equipamentos, sistemas não tripulados, sensores, comunicações seguras e tecnologias de vigilância e proteção. A proximidade ao Atlântico também torna natural considerar capacidades ligadas à segurança marítima e à manutenção naval. O ponto de partida deve ser um levantamento sério das competências existentes e das que podem ser desenvolvidas, não uma lista de promessas feita para uma conferência de imprensa.
Uma política industrial de defesa pode criar emprego qualificado, aprofundar a investigação e aproximar empresas, universidades e centros tecnológicos. Mas esses ganhos não são automáticos. Exigem formação, investimento estável e contratos com metas verificáveis. O Estado deve ser um comprador exigente e um regulador firme — não um financiador de projetos sem mercado, sem tecnologia própria ou sem utilidade operacional.
Também é preciso enfrentar a objeção mais importante: cada euro gasto em defesa deixa de poder ser aplicado noutra prioridade. É verdade. Por isso, a discussão deve ser sobre necessidades concretas, custos transparentes e resultados, não sobre percentagens lançadas sem explicação. Produzir em Portugal só faz sentido quando oferece valor estratégico e económico face às alternativas. A palavra “soberania” não pode servir de desculpa para pagar mais por menos.
E a responsabilidade não termina à saída da fábrica. Exportações devem obedecer a controlos rigorosos e à lei internacional. Contratos, beneficiários e destinos precisam de escrutínio democrático. O setor deve estar sujeito a fiscalização parlamentar e a regras claras contra desvios e corrupção. Uma indústria que afirma defender a democracia tem de aceitar a transparência que a democracia exige.
Criar fábricas de defesa não é escolher a guerra. É reconhecer que a segurança não se improvisa e que a dependência absoluta também tem um custo — ainda que esse custo só se torne evidente quando já é tarde. Portugal não precisa de se tornar uma potência militar. Precisa de decidir que contributo pode dar, que competências quer construir e que limites éticos não está disposto a ultrapassar.
A Europa não tem de produzir tudo. Mas tem de ser capaz de produzir o essencial. E Portugal não deve esperar pela próxima crise para descobrir que, afinal, a segurança que julgava garantida dependia de uma fábrica que ficava noutro país.
