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Tempos Modernos

Um breve pensamento partilhado nas redes sociais

– essa janela nada indiscreta – referindo que a minha vida,
grande ilusão de sapatos vermelhos, dava um filme de Bergman.

Steven Spielberg, qual Nosferatu sorvendo-me a paciência,
desde então não tem cessado de aliciar-me, que será o meu padrinho,
que já antevê um estrondoso sucesso nas bilheteiras,
o mundo a meus pés, uma chuva de óscares (com direito a serenata e tudo),
a aclamação da crítica, um lugar na cumeeira da história do cinema.
No início ainda pensei: isto até pode ser o começo de uma bela amizade –
mas ao regressar à rua do meu discernimento, paisagem penetrável,
entrei em casa e bati a porta a esta comédia.
Admitindo que a felicidade é aquele rol de bugigangas
que as revistas e televisões apostolizam, o cinema até parece um paraíso.
Filmes, filmes – tudo filmes, convenhamos. E o Óscar de melhor filme vai para…
Corta, corta, corta.

Hollywood continua igualíssima ao que sempre foi,
sempre a voar sobre um ninho de cucos, a roubar bicicletas,
um sol enganador. Sim, isso mesmo – um sol enganador
– o que vem comprovar resolutamente que a oeste nunca há nada de novo.
Mas nada de ressentimentos: no fundo são todos bons rapazes.
Visto deste ângulo, isto até dava um filme
desse evadido do manicómio do Doutor Caligari.
desse touro enraivecido disfarçado de cão andaluz.
Isto dava realmente um filme do Woody Allen, não dava?

A vida é bela, propagandeiam muitos.
E está sempre aberta até de madrugada, proclamam muitos e mais alguns.
Eu, contudo, nunca acreditei nisso. Bela é a Branca de Neve.
Bela é a música que Bacalov espalhou pelo filme O Carteiro de Pablo Neruda.
A vida, a vida jamais se coadunou com esse adjectivo superlativamente volátil,
adjectivo cujo elevado grau de intangibilidade é apenas superado
pelo grau de total inalcançabilidade da felicidade.
E não há feiticeiro, medicamento, nada que possa valer-nos, aliviar-nos,
com a agravante de que assim será até à eternidade.
– Considerações, aclarações, certezas de quem fala com ela – com a vida.
(Há dias, pesarosa, córnea molhada e reluzente, a vida confessou-me
que muito recentemente teve de vender a quinta que tinha em África.
Eu tive uma quinta em África, também.
A minha perturbação mal soube exprimir-se).

Ensinador acontecimento alcandorado benção,
surge entretanto a aurora, imperturbável, infalível, igualmente bela,
a anunciar-nos incessantemente que, salteadores de sonhos,
todos temos uma psicose de estimação, todos transportamos
em arcas perdidas dentro de nós obsessões, memórias, frustrações, crenças.
Errabundos, quiméricos, dançando no escuro, esfaimados não sabemos bem de quê,
fazemo-nos à estrada, absolutamente desapetrechados, fustigados por faúlhas gélidas,
e errabundos, loucos, quiméricos, esfaimados não sabemos bem de quê,
entre bons, maus e vilões, vamos em busca de um tesouro que a nossa infância
escondeu na Sierra Madre – e logo esqueceu, da mesma forma que esquecemos tudo
aquilo que os deuses gregos e os seus cronistas nos ensinaram.
Só me ocorre uma palavra para definir isto: melancolia.
Melancolia é uma palavra ostentativamente triste, o seu planger deixa-nos
sem vontade de fazer seja o que for. E no entanto há tanto para fazer, tanto.
Não sei se reze ou escreva um poema.

Ouço gritos, sussurros. E há olhos a chorarem incontidamente,
lágrimas formando riachos, ribeiros, rios,
o suficiente para originar um longo e abundante caudal de pegadas de angústia,
líquida porção humana com pavor do mar. Entretanto nós,
talvez para distrair o que temos medo de sentir, assobiamos,
como soldados enfiados em trincheiras de temor, afagantes cantilenas.
Ainda que raramente, abençoadas, há lágrimas que caem no deserto vermelho
que deflagra no nosso sangue e, epifania que ninguém soube ainda explicar,
fazem germinar bandos de aves de esperança, céus generosos,
árvores que nos pegam ao colo e nos amamentam,
arpejos de silêncios hábeis em silenciar
dos grilhões os rangidos que nos ensurdecem os ossos –
insidioso adorno, virose contraída assim que fomos parturidos.
(Aludamos por breves instantes a esta doença, mais precisamente
à dor agonizante sentida no exacto momento em que a contraímos:
dor pactuante com todas as nossas terminações nervosas, dor inconciliável com lenitivos,
repetição dolorosa da dor do desabrolhar cósmico que deu origem à criação do universo,
sevícia minuciosa da alma, agulhas de lava trespassando todos os nossos músculos,
montanhas com patas de pedra espezinhando gota após gota todas as gotas do nosso sangue.
– Eis o paroxismo da totalidade das dores humanas.
Aludamos igualmente à ambiciosa e inventiva intensidade dessa dor,
incomparavelmente superior à intensidade do somatório
das dores de todas as mães do mundo quando deram à luz,
dor tão horrivelmente intensa, vasca atroz, intolerável,
que atiçou em todos nós um choro irrepetível, extraordinário, supremo,
um choro onde ecoaram os choros de todos os nascidos nesse momento.
– Eis o mais estrepitoso, pungente e estremecido choro de toda a nossa existência).

No fundo do cesto sobram ainda alguns morangos silvestres.
Consolemo-nos com o seu sabor, o seu aroma, a sua cor,
e elogiemos o cabelo das nossas mães, a imaginação das flores,
os claustros das palavras, a erudição dos astros, a feminidade das fontes.

Eis-nos inescapavelmente aqui nesta vasta e inóspita plateia, ora pasmos,
ora enfastiados, pálpebras decepadas, assistindo ao mais longo filme.
(Por vezes um sorriso refugia-se fugazmente nos nossos lábios).
Vinda de frestas de feridas insaráveis, porque auxiliada
no triunfo por impercetíveis couraçados instruídos pela nossa incredibilidade,
uma vertigem encastela-se no nosso pensamento.
Esta vertigem todas as vertigens do medo, legítimo abismo,
que a loucura levanta nos pantanais dos nossos olhos.

E se pedissem ao ao Ennio Morriconne
para compor uma fogueira de ritmos e timbres
para enaltecer toda esta inusitada metafísica?
Já agora, aproveitem e peçam-lhe também para compor
um requiem para o fim das nossas vidas, que não deve tardar.

No final do filme, o inderrubável, demolidor e implacável vento tudo levará.
O Óscar de melhor filme irá inevitavelmente para Deus, alheio a todo este espectáculo.
(É tão efémero tudo aquilo que precisa de luz).
E a nós, amadores estreantes, simples figurinos sonâmbulos,
restar-nos-á uma imensa, fria e eterna tela escura,
anoitecido espelho trespassado de sombras.

(Para o António Raúl Reis)

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dinismoura