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Pink Floyd e eu

If you didn’t care       se tu não quisesses saber

What happened to me       o que se passou comigo

And i didn’t care for you       e eu não quisesse saber de ti,

We would zig-zag our way       andaríamos em zigue-zague

Through the boredom and pain       através do tédio e da dor,

Occasionally glancing up through the rain       ocasionalmente vigiando através da chuva,

Wondering which of the buggers to blame       indagando qual dos idiotas culpar,

And watching for pigs on the wing        e vigilantes com os porcos na asa

(Pigs on the wing, part one – Animals – Pink Floyd)

Quando o tio Manuel de Lisboa empacotou numa caixa de papelão alguns livros, entre os quais dois de Júlio Verne, “Viagem ao Centro da Terra,” e “Keraban o Cabeçudo,” ainda três de Agatha Christie e o celebérrimo Hércule Poirot, Poly em Veneza de Cécil Aubry, e as aventuras de Guilherme, bem como um velho gira-discos, que tinha mais de antigo do que de velho, com meia dúzia de singles em vinil entre os quais Beatles, Sandie Shaw, Frank Sinatra, Badaró, e um tal Teixeirinha gaúcho de gema, talvez, ou talvez não, sem saber empacotava também, vindo lá da capital, aquilo que seria o despertar do meu gosto pela leitura e pela música. Duas paixões que fazem parte da minha vida, daquilo que eu sou e como, ao longo dos anos me desenvolvi como homem, como ser humano, contribuindo em grande parte para o meu carácter e a minha personalidade, em torno destas duas paixões.

Apesar de tudo, cedo percebi que nenhum dos singles enviados iriam fazer parte das minhas preferências musicais no futuro. Mas o velho gira-discos, mais antigo do que velho, lá estava em casa, pacientemente à espera de fazer o seu papel, dar um clique em relação àquilo que viria a ser o meu gosto musical.

Nessa altura, e já decorreram mais de trinta anos, encontrar uma loja em Felgueiras onde se pudesse comprar discos de música parecia ser uma miragem.

E um dia, a minha mãe ordena-me que vá à loja do senhor Nelson, porque nessa época as mães não pediam, ordenavam, com a simples missão de entregar uma encomenda de umas quantas garrafas de gás lá para a loja dos meus pais pois o senhor Nelson era o fornecedor habitual da casa.

A loja do senhor Nelson, um respeitado comerciante de Felgueiras, era especializada em eletrodomésticos, produtos elétricos e fornecimento de gás, por isso, ao entrar na loja pela primeira vez, muito embora sempre soubesse da sua existência, fiquei espantado ao ver a um canto uma pequena secção de venda de LP’s e singles em vinil.

Quase me esqueci do propósito que me levou à loja em primeiro lugar, a simples tarefa de entregar uma encomenda para umas quantas garrafas de gás.

A senhora que atendia na loja, alem da sua simpatia tinha um tato natural para o negócio e acima de tudo uma paciência de Jó.

Perante a minha curiosidade em relação à discografia exposta, acedeu a pôr no gira-discos, esse sim, moderno e sofisticado, alguns dos álbuns que eu desconhecia e por esse motivo queria ouvir antes de comprar.

Depois de experimentar uma boa meia dúzia deles e de a todos ter torcido o nariz, apontei para um LP que me pareceu, pela capa, bastante invulgar. Um conjunto de fábricas, com especial destaque para uma que sobressaia altiva, assustadora e de forte presença, com quatro chaminés em cada extremidade dos cantos da fábrica, quais canhões apontando o céu, e entre as duas chaminés da frente um porco insuflável a flutuar. Muito mais tarde vim a saber, Battersea Power Station, em Londres.

Pouco antes de chegar a Victoria Station, bem no coração de Londres, da janela do comboio que vai abrandando a sua marcha já depois de ter passado Battersea, à medida que se vai aproximando do fim da linha, fico de olhar quase perdido, a testemunhar as famosas chaminés com a mesma forte e quase assustadora presença de outrora, mas sem o porco a flutuar, e a mergulhar em memórias que me transportam de novo à loja do senhor Nelson e da sua pequena secção de discos em vinil, da senhora que me atendeu e que com paciência de Jó, prontamente a por no tal gira-discos o LP, Animals, de uma banda chamada Pink Floyd.

If you didn’t care what happened to me, and I didn’t care for you…”

E eu a não fazer ideia do que estas palavras significavam, mas a voz de Roger Waters, única e diferente de tudo o que eu tinha ouvido até àqueles cerca de quinze anos da minha existência neste mundo, a surtir um efeito dentro de mim, quase mágico, um despertar de um novo sentimento até então desconhecido, o gosto, a satisfação de ouvir um tipo de música que mexia e de que maneira, com todos os meus sentidos.

E a senhora da loja, com paciência de Jó, a saltar com a agulha do gira-discos de música em música, e eu cada vez mais perplexo, mais maravilhado, sem saber como nem porquê, a sentir que de alguma maneira estava a testemunhar uma obra-prima criada por uma banda composta por um grupo de amigos, estudantes de arquitetura, em Londres. Tive um sentimento semelhante a este quando anos mais tarde li o Memorial do Convento, e a Jangada de Pedra, de José Saramago, e disse à senhora da loja, “compro,” e comprei. Bem como, a partir desse dia e desse álbum, fui comprando todos os discos da banda, uma boa parte desses discos, na loja do senhor Nelson, assim como fui comprando ao longo dos anos os álbuns a solo de cada um dos elementos da banda, Syd Barret, Roger Waters, Nick Mason, Richard Wright e David Gilmour.

E durante alguns anos cheguei mesmo a pensar que num universo de fans dos Pink Floyd, espalhados pelo mundo inteiro, eu era o fã mais assíduo, mais apaixonado e mais fiel da banda uma vez que, qualquer um dos clássicos de Floyd mexia comigo da mesma maneira que mexia ao ouvir Astronomy Domine, Fat Old Sun, Corporal Clegg, Careful With That Axe Eugene, A Saucerful of Secrets, entre outros mais psicadélicos e audíveis só para quem realmente gosta da banda, até que um dia, numa mesa do ex. café Paddock, em conversa mais aprofundada com o amigo Vicente Machado, descubro que afinal mais alguém tinha a mesma paixão por Pink Floyd como eu tinha. E, nessa altura, muito embora reconhecendo o papel primordial e insubstituível de cada um dos elementos da banda, tanto eu como o amigo Vicente Machado tínhamos uma predileção especial por Roger Waters.

Quando fiz dezoito anos de idade, supostamente atingindo nessa altura o estatuto de maior de idade, o meu amigo Gomes Diogo ofereceu-me um álbum de discos, “Para colocares a tua coleção dos Pink Floyd,” dizia a dedicatória, escrita e assinada por ele poucos dias antes do dia dezanove de abril de 1983.

Foi também com o meu amigo Gomes Diogo que assisti pela primeira vez a um concerto dos Pink Floyd, no estádio Vincent Calderón em Madrid, estávamos a 22 de julho de 1988, concerto que fazia parte da digressão “A Momentary Lapse of Reason,” e o concerto, memorável, tão memorável que por si só merecia um texto único e exclusivo, tinha apenas um senão, Roger Waters tinha deixado a banda e não fazia, obviamente, parte do concerto.

Mais tarde voltaria a assistir a um outro concerto de Pink Floyd, desta vez no saudoso estádio José de Alvalade, em julho de 1994, na digressão “The Division Bell,”

Na radio Felgueiras, no programa que realizei e apresentei durante oito anos, “O Regresso dos Velhos Heróis” com a preciosa colaboração do António Teixeira, fizemos alguns especiais Pink Floyd, e no Semanário de Felgueiras, jornal local, escrevi sobre Pink Floyd e Roger Waters, aquando da edição do seu solo álbum “Amused to Death.” Em setembro de 1994.

E em anos mais recentes, finalmente concretizei o sonho de ver Roger Waters em concerto. Maio de 2008, em Megaland Landgraaf na Holanda, na digressão “The Dark Side of The Moon”

Saí de Amesterdão, onde estava a trabalhar nessa altura, com tempo suficiente para que não me fosse difícil entrar no recinto do concerto e escolher uma posição bem na frente, o mais chegado possível do palco, para poder ver bem de perto um dos maiores génios da música, por quem eu tenho uma infindável admiração. E assim que o concerto começou e Waters apareceu no palco, a certa altura, sei que me viu, que olhou para mim, e que com o mesmo sentimento inexplicável que eu tive ao ouvir pela primeira vez, “Pigs on The Wing, part one” também ele deve ter sentido, de alguma maneira, que ali no meio daquela multidão estava um tipo em particular que jamais poderia contar a história da sua vida sem que a ela estivesse associada a música que ele, Roger Waters, criou e ajudou a criar.

No ano passado, maio de 2017, visitei deslumbrado, juntamente com o meu filho Miguel, “Pink Floyd, Their Mortal Remains exibition,” no Victoria and Albert Museum em Londres.

Em Milton Keynes Theatre assisti ao concerto das bandas de tributo a Pink Floyd, Brit Floyd e The Australian Pink Floyd Show, e em Dunstable Grove Theatre, Think Floyd.

Espero pacientemente por julho e pela digressão, “Us and Them” de Roger Waters, em Hyde Park, Londres.

Gosto de música em geral, desde a música clássica ao rock, do fado ao pop, e não gosto de rap.

Gosto de ouvir Amália, nos momentos certos, Ana Moura, Mariza, Pedro Barroso, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, adoro Zeca Afonso, Sérgio Godinho, Rui Veloso…

Nos momentos certos também, gosto de Abba, Boney M. Demis Russos, Neil Diamond, e, uma vez mais nos momentos certos, gosto de Mozart, Chopin e Beethoven. Gosto de Enigma, Era, Cânticos Gregorianos e de Vangelis…

Mas Pink Floyd… Pink Floyd e eu, sempre andamos de mãos dadas, desde aquele dia em que ao cumprir um recado ordenado pela minha mãe, na loja do senhor Nelson, a senhora simpática e acima de tudo com paciência de Jó, colocou a agulha do gira-discos moderno e sofisticado, no inicio do álbum “Animals” dos Pink Floyd e Roger Waters,

If you didn’t care what happened to me

And I didn’t care for you (…)

Nota do Autor: Esta música escrita por Roger Waters, é provavelmente a mais próxima de uma canção de amor que Pink Floyd jamais fez. Numa entrevista em 1978 Waters disse que a música era acerca da sua futura esposa, Caroline Christie (divorciaram-se em 1992). Segundo as palavras de Waters o que o poema significa essencialmente é que, “Se não cuidarmos um do outro, e se não tivermos empatia um pelo outro, então o que nos resta é esta…porcaria de mundo à nossa volta. – And watching for pigs on the wing (E vigilantes com os porcos na asa, ou, ficamos a ver os porcos a voar – na nossa asa. Ou seja, o que a frase quer dizer essencialmente é que se não cuidarmos um do outro haverá sempre alguém que se senta na nossa asa enquanto voamos e voa à nossa pala enquanto o esforço é nosso. Se não cuidarmos um do outro haverá sempre quem se aproveite de nós.) Watching for that pig on our wing – vigilantes com este “porco” na nossa asa.