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Magda Pucci: a potência da música e da diversidade cultural

Artista múltipla, Magda Pucci pesquisa, há mais de duas décadas, a produção musical de diversos povos do mundo. Graduada em Regência pela Universidade de São Paulo, mestre em Antropologia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e doutora em Performance e Artes Criativas pela Universidade de Leiden, na Holanda, é fundadora do grupo Mawaca, reconhecido internacionalmente pela divulgação da música de diferentes tradições culturais. Ao lado de Carlinhos Antunes e Lívio Tragtemberg, foi diretora da Orquestra Mediterrânea, com músicos de 21 países. É coautora dos livros “De todos os cantos do mundo”, “Contos musicais”, “Outras terras, outros sons”, “A grande pedra”, “A floresta canta” e “Cantos da floresta”.

Arranjadora, compositora, diretora, produtora, cantora, pesquisadora, professora e escritora. Como dividir o tempo em tantas funções?

É sempre complicado manter tantas atividades simultaneamente. Sou bastante estressada por causa disso, mas adoro o que eu faço, portanto prefiro não reclamar. São escolhas que fazemos na vida, não é mesmo?

Você é graduada em Regência, mestre em Antropologia e doutora em Performance e Artes Criativas. Como foi trafegar por áreas diversas e em que sentido elas se complementaram?

De certa forma, são áreas que dialogam entre si, principalmente para o tipo de trabalho que me propus a fazer, que lida com músicas de diversas tradições do mundo. A música, para mim, é muito mais do que tocar notas de uma partitura ou apenas interpretar canções de amor. Ela tem um sentido muito mais amplo, de se conhecer pessoas de lugares outros do mundo todo. Portanto, o mestrado em Antropologia me ajudou muito a entender esses lugares sonoros, outras expressões vocais que eu venho pesquisando há tanto tempo. O doutorado em Performance e Artes Criativas acabou por reunir essas duas esferas: música e antropologia, pois ele proporciona esse espaço para atender a artistas pesquisadores, isto é, que tem uma pesquisa que ancora sua arte. Estou feliz por poder falar sobre isso e perceber que há outros como eu desenvolvendo projetos interessantes por aí afora.

Quando e por que a ideia de criar o Grupo Mawaca?

O Mawaca surgiu de uma necessidade minha de conhecer cantos de outros lugares do mundo, buscar outras sonoridades vocais, principalmente de mulheres de diferentes regiões do mundo. Quando eu me formei na Universidade de São Paulo, mais voltada para a música erudita, eu sentia que precisava ampliar o que já havia estudado e queria desenvolver outras sonoridades, outras formas de fazer música. Ainda na faculdade, ganhei uma fita cassete do Coral das Mulheres Búlgaras e aquilo me atiçou a vontade de conhecer outras formas de cantar coletivamente. Esse grupo, essencialmente feminino, tem um timbre vocal muito peculiar e canta temas tradicionais camponeses em arranjos contemporâneos muito interessantes. Depois de reger muitos corais em São Paulo, eu tive a oportunidade de desenvolver um grupo de estudos com uma amiga, Kitty Pereira. Mais tarde, começamos a interpretar algumas músicas africanas, cantigas japonesas, os tais cantos búlgaros que eu tanto amava e daí não mais parei. Esse grupo de estudos deu origem ao Mawaca, que hoje tem 23 anos de existência e uma carreira potente, embora pouco conhecido da grande mídia.

O que é o Espaço Cultural Mawaca?

O Estúdio Mawaca é a sede do grupo, local onde fica a produtora Ethos que administra o Mawaca. E decidi transformá-lo em um espaço aberto para músicos e artistas com interesses próximos aos do Mawaca, com repertórios focados nas músicas do mundo, com propostas inusitadas e abertas, que também abordem a improvisação livre e experimentações sonoras. Lá, oferecemos uma agenda com shows, workshops, oficinas, cursos. A agenda está disponível no site www.estudiomawaca.com

A imbricação de linguagens artísticas nos espetáculos do Mawaca, envolvendo teatro de bonecos, contação de histórias e música resulta numa estética visual e sonora expressiva e original. Como se dá o processo de construção dos espetáculos do grupo?

Essa junção de teatro de bonecos e contação de histórias acontece no espetáculo para crianças que criamos, chamado Pelo Mundo com Mawaca, que tem direção do Wanderlei Piras, um experiente diretor de teatro infantil. Buscamos criar um espaço estimulante e ao mesmo tempo informativo para que as crianças conheçam as histórias das músicas do Mawaca, viajando com a gente por vários lugares do mundo. A construção desse espetáculo começou com um roteiro baseado no livro “De todos os cantos do Mundo” que eu escrevi junto a Heloisa Prieto, uma escritora muito premiada e com larga experiência no universo infanto-juvenil. O livro foi um estímulo para colocarmos aquelas histórias no palco. Fico feliz de estarmos sempre tocando por ai para as crianças. Uma delícia!

Como é trazer para os centros urbanos o universo dos instrumentos musicais indígenas? Há alguma dificuldade em trazê-los para o palco sem alterar sua sonoridade original?

No espetáculo Rupestres Sonoros, com temática indígena, usamos apenas os maracás indígenas no palco. Os outros instrumentos não são utilizados por razões diversas. Nossa ideia não é reproduzir a sonoridade indígena no palco, mas sim nos inspirar nas suas melodias e ritmos, buscando recriar esse repertório tão rico e pouco conhecido, mas em versões contemporâneas que dialoguem com nossas formas urbanas de expressão.

O Mawaca já se apresentou na Espanha, Alemanha, China, Portugal, Bolívia, Grécia e França. Como tem sido a receptividade do grupo no exterior?

A receptividade é sempre muito boa. As pessoas ficam impressionadas com a nossa performance, com o repertório multicultural e com a forma como as músicas são entrelaçadas. Estivemos três vezes na China – uma vez em Xangai e duas em Hanghzou, uma linda cidade histórica – e foi sempre um sucesso tremendo. Na França, fizemos o repertório indígena numa pequena cidade da Provença e foi uma coisa linda. O público foi extremamente receptivo e fizemos diversos bis. Na Grécia, estivemos em um congresso de educação musical super importante, ao lado de Yamandu Costa e Antonio Nobrega. Alegria imensa compartilhar o palco com esses dois mestres. Viajar pelo mundo é sempre uma boa experiência.

Quanto tempo levou para ser gestado o livro Cantos da floresta, que reúne músicas de nove povos indígenas?

Esse livro demorou quase oito anos para ser gestado. Comecei a escrevê-lo quando estive na Amazônia com o Mawaca, durante uma turnê que fizemos em 2010. Ele passou por diferentes fases, ganhou um filhote antes de nascer, que é o livro para crianças “A Floresta Canta – uma expedição sonora por terras indígenas brasileiras” e só conseguimos finalizar com o apoio do edital da Natura-ProAC, programa de incentivo fiscal do Estado de São Paulo. O livro se presta a ser uma ponte entre os estudos mais acadêmicos com o professor do ensino fundamental e médio, que precisa inserir conteúdos indígenas nas escolas, mas não tem muitas referências no assunto. Estamos tentando contribuir para um processo de desconstrução de uma mentalidade que ainda pensa que os indígenas são atraso ao país, que têm uma cultura primitiva e tal. Então, ele tem esse intuito claro de ser um material introdutório para facilitar o processo de aprendizado do professor. Dentro dele, há muitas dicas de leituras, de vídeos, de sites para que ele possa aprofundar suas pesquisas futuras. Além disso, ele tem um site com propostas didáticas com os áudios e partituras disponíveis em www.cantosdafloresta.com.br

Você é coautora, ao lado de Heloisa Prieto, dos livros De todos os cantos do mundo e Contos musicais. E com Berenice de Almeida escreveu Outras terras, outros sons, A grande pedra e A floresta canta: uma expedição sonora por terras indígenas do Brasil e Cantos da floresta. Pode nos contar um pouco sobre o processo de elaboração dos livros a quatro mãos?

Eu gosto muito de trabalhar em parceria. Acho que o projeto ganha mais, apesar de ser mais trabalhoso. É um ir e vir constante e muitas revisões, conversas, trocas de ideias muito legais.

“Cantos da floresta” é um projeto transmídia. De onde a ideia de realizá-lo?

Conforme mencionei há pouco, estive na Amazônia com o Mawaca, em 2010, conhecemos alguns grupos de povos do Acre, Amazonas e Rondônia: Huni-Kuin, Kambeba, Bayaroá, Karitiana, Ikolen-Gavião e Paiter Surui, este último com quem tinha desenvolvido minha tese de mestrado em antropologia. Conversando e fazendo música com eles, percebi a vontade que tinham de difundir suas músicas, suas histórias e considerei a possibilidade de disponibilizar os áudios e vídeos gravados durante a viagem para um público maior, mas eu queria direcionar isso de uma forma que não ficasse tão solto. Então, a ideia do livro veio a calhar, pois, em 2003, eu já tinha escrito um livro antes com a Berenice, o “Outras terras, outros sons”, que tinha um capítulo sobre músicas indígenas e a gente observou que ainda precisava aprofundar mais o universo dos povos originários, pois as culturas afro-brasileiras são mais presentes nas escolas, mas as indígenas ainda não. Sabemos que é um longo caminho a ser percorrido ainda. Então, decidimos arregaçar as mangas e trabalhar sobre esse material recolhido na turnê do Mawaca e complementá-lo com mais alguns grupos como os Krenak, Guarani, Yudjá, Kaingang e Xavante para que o livro apresentasse um panorama mais amplo da diversidade indígena brasileira. E ele foi crescendo de tal forma que acabou ganhando 335 páginas, com mais de 200 fotos, antigas e atuais, ilustrações super- legais, mapas, partituras e um CD que o acompanha, com 27 músicas.

Sua obra contribui largamente para a preservação da cultura indígena em nosso país. Temos olhado com a devida atenção para nossas raízes ancestrais?

Definitivamente, não. A sociedade brasileira, em geral, olha para os indígenas com desdém, desconhece suas realidades, mal sabe quantos povos existem aqui no Brasil, quantas línguas são faladas, enfim, é um completo desconhecimento. Essa realidade precisa mudar, pois indígenas não são passado, são presente. Estão aqui, mas invisibilizados e ignorados. Felizmente, observo um protagonismo de líderes jovens indígenas, estudantes, gente indo para as universidades e ocupando espaços que espero mudar esse quadro em alguns anos.

Num trecho de “Cantos da floresta”, ao descrever o mito dos Bichos de Palop, descrito pelo pajé Dikboba, lemos que “o canto é fala e a fala é canto”. Como os mitos e a cultura dos povos indígenas têm conseguido sobreviver diante de tanto esmagamento causado pela cultura dos brancos?

Infelizmente, nas aldeias indígenas, pajés e narradores de mitos estão desaparecendo, por conta da pressão das igrejas pentecostais que proíbem ou inibem a presença dessas figuras tão importantes para a manutenção das tradições indígenas. Além dos evangélicos, há também uma pressão grande do agronegócio, do garimpo, das hidroelétricas que desmatam destruindo o meio ambiente de onde os indígenas retiram sua alimentação, suas formas tradicionais de viver, suas cosmologias e mitologias. Enfim, essas coisas todas são entrelaçadas com o modo de viver e ver o mundo. Com tanta interferência e falta de respeito, sutilezas de narrativas como a de um pajé como Dikboba, passam a ser cada vez mais raras.

Os Guaranis, ao chegarem aqui os colonizadores portugueses, eram cerca de dois milhões de pessoas, o que prova que a barbárie praticada contra os povos indígenas foi imensa entre nós, fato ainda corriqueiro 500 anos depois. O que se faz mais emergencial na defesa dos povos indígenas que ainda resistem à opressão dos brancos?

Existem algumas ONGs que desenvolvem projetos interessantes como o ISA – Instituto Socioambiental – e muitas outras que buscam ajudar os indígenas nesse processo de auto-sustentabilidade, propostas culturais, educacionais etc. Mas, infelizmente, estamos vivendo um grande retrocesso e muitos projetos estão sendo parados, estão sem recursos. Direitos adquiridos estão sendo perdidos como a demarcação das terras indígenas que tardam décadas criando sérios problemas para as vida dos indígenas brasileiros. O massacre não é apenas físico, mas cultural, já dizia Pierre Clastres.

Darcy Ribeiro dizia que “As elites brasileiras são cruéis, elas asfixiam as massas mantendo-as na escuridão da ignorância. As escolas não cumprem com o papel de educar e preparar os meninos do Brasil.” A invisibilidade e a recusa da cultura indígena pela sociedade brasileira são aspectos que fortalecem o preconceito em relação aos índios. Como disseminar um olhar mais sensível sobre os índios?

Penso que as artes podem ser um bom caminho para sensibilizar as pessoas sobre a riqueza cultural que os indígenas brasileiros têm a nos mostrar e compartilhar com a sociedade. Exposições, apresentações musicais, rádios como a Yandé, literatura com temática indígena são sempre bem-vindas nesse processo de transformação e mudança de mentalidade. Não resolvem, mas ajudam. Mas acho que é na educação que esse processo de reconhecimento e compreensão sobre as realidades indígenas tem que acontecer com clareza, aprofundamento e inteligência. Não podemos continuar a reproduzir o que os livros de história nos contam até hoje, sobre a existência dos indígenas no passado, que eram todos preguiçosos e tal.Isso ainda está sendo compartilhado por aí. Se não houver um olhar mais sensível a essa questão, os professores atuais vão continuar reproduzindo esses estereótipos e os jovens quando crescerem manterão essa antiga mentalidade.

Para Mário de Andrade, “O som e o ritmo são tão velhos como o homem. Este os possui em si mesmo, porque os movimentos do coração e o ato de respirar já são elementos rítmicos.” Enfim, não há civilização na história da humanidade que não tenha tido contato com a música. É possível, no entanto, separar a boa da má música. Algo em especial as define?

Sim, a música tem um papel importante em todas as sociedades do mundo, seja na Mongólia, em algum país africano, na Europa ou nas Américas, onde quer que seja. Aliás, esse é o papel dos etnomusicólogos que se debruçam sobre tradições antigas e novas que são manifestas em diferentes lugares do mundo por grupos diversos. Cada um, à sua maneira, tem sua forma de fazer música. A diversidade é imensa. Precisamos olhar para elas. Precisamos ouvi-las.

Qual a razão do desinteresse pela música indígena por parte dos viajantes do século XVI? Alguns musicólogos chegaram a afirmar que ela era primitiva e monótona. Como derrubar tal argumento?

Muitos viajantes consideravam as expressões sonoras indígenas de qualidade inferior ou primitivas, pois sempre a comparavam com seus referenciais europeus. Comparar expressões artísticas é sempre um perigo. A falta de compreensão dos contextos e a pouca intimidade com as pessoas locais são aspectos que impedem de ouvir musicas diferentes das que estamos acostumados com olhares desprovidos de julgamento. A comparação causa distorções sérias.

Em algumas comunidades indígenas as mulheres são proibidas de tocar flauta. Isso significa algum traço machista?

A proibição das mulheres tocarem as flautas sagradas está embasada num mito, isto é, num ocorrido remoto, que se transformou em um tabu. Tem a ver com os ciúmes que os homens tinham das mulheres tocarem suas flautas por muito tempo. E num certo momento, decidiram roubar as flautas delas e assim se instalou a proibição. Na realidade, elas podem ouvir, mas não podem ver os instrumentos. No Xingu, onde esse tabu é bastante forte, as mulheres tiram um dia para fazer tudo o que faziam no passado e foram proibidas pelos homens. Isso ocorre no ritual do Yamuricumã. Nesse dia, elas dançam, cantam os temas tocados pelas flautas, batem nos homens, se pintam, usam os adereços masculinos e fazem o que bem entendem. Feminismo indígena! Mas é importante dizer que há algumas exceções como as flautas mimby pu, que são tocadas em duo pelas mulheres guarani mbyá, que estão presentes, inclusive, no nosso livro, em uma das faixas do cd. Toda regra tem sua exceção.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo (USP) professor, ator e jornalista.