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Jejum

Segundo uma investigação do “Forsa-Institut”, 57% dos alemães acham bem reduzir o consumo de doces, álcool, carne ou TV, ou renunciar, totalmente a ele, durante a Quaresma.

Muitas das práticas e ritos da religião são expressão do anseio humano por um viver integral. Neste sentido, a cristandade, com a Quaresma, aponta especialmente para a dimensão espiritual humana no sentido de se transcender o mero caminhar individual e social, na tensão entre realidade e ideal de “alma sã em corpo são”!

Com o tempo, muitos dos usos e ritos religiosos vão-se secularizando, perdendo de vista o seu aspecto espiritual, passando a ser utilizados apenas no sentido de mera funcionalidade e de optimização corporal e social.

O que é bom para o corpo não precisa de concorrer com o que é melhor para a alma, dado sermos formados de corpo e alma e, nesse sentido, o esforço mais eficiente será contemplar os dois polos sem necessidade de os rivalizar ou hostilizar!

A Quaresma inicia-se com a Quarta-feira de Cinzas; “de cinzas”, porque os padres nas liturgias de Quarta-feira colocam cinza na testa das pessoas, dizendo: “lembra-te Homem que és pó, e em pó te hás de tornar” (Gênesis 3:19). Pressupõe-se, também ritualmente, a disposição para se deixar o que é velho (o Homem velho) para dar lugar ao novo, e, consequentemente, a prontidão para a metanoia, a mudança e o novo começo. A vida é um contínuo recomeçar! Parar é morrer ou endurecer!

A quaresma (40 dias) é o período que vai de Quarta-feira de Cinzas até Quinta-feira Santa. Estes são tempos de preparação para os grandes acontecimentos, que implicam sempre (Kairós) transformação: 40 dias de dilúvio, 40 dias de Moisés no Sinai da sarça ardente, 40 dias de Jesus no deserto (porque “o Homem não vive só de pão”) e os 40 dias que vão da morte à Ressurreição (preparação). Os Domingos não são considerados como tempos de jejum nem de abstinência.

(Antigamente jejuava-se também em todas as Quartas-feiras do ano – como lembrança da traição de Jesus nesse dia) e em todas as sextas-feiras (como lembrança da crucifixão.)

O jejum e abstinência levam-nos a estar mais atentos a nós mesmos, ao próximo e à natureza; facilitam a meditação e a oração possibilitando a entrada numa terceira dimensão: a dimensão espiritual do silêncio onde o mistério divino sente, fala e age em nós.

Na Quaresma dá-se a preparação da comunidade de fiéis para a celebração da festa pascal. Neste tempo da paixão, os cristãos sofrem com Cristo as dores da humanidade e do mundo (tempo da compaixão); daí o seu recurso mais intensivo ao exercício da caridade (sintonia e solidariedade) e da oração. O Papa Francisco sugere 15 actos (1) nesse sentido.

A abstinência possibilita a concentração em algo melhor. Com o jejum mais facilmente se chega à visão do mistério da Páscoa e se fortalece a relação com Deus no próximo. Como efeito colateral dá-se a regeneração do organismo numa osmose de espírito e matéria. O facto de se tomarem mais líquidos e menos comidas sólidas obriga o corpo, com o tempo, a produzir mais serotonina e com isto mais contentamento e equilíbrio mental e espiritual.

A prática do jejum e da abstinência são exercícios de libertação

A prática do jejum e abstinência é comum em todas as culturas! No islão recorre-se à abstinência de comida e de sexo; no Budismo, os monges em vez de duas refeições diárias comem até às 12 horas uma refeição e à noite apenas bebidas.

O jejum e abstinência aponta para a necessidade de nos libertarmos não só das cargas do dia-a-dia, mas também da rotina do pensar e sentir, para entrarmos numa dimensão diferente e mais profunda!

Vivemos numa liberdade aparente, puxados pelo máximo desempenho até ao esgotamento, mas propriamente sem nos apercebermos do sentido de tal esforço.

Tempos como os da Quaresma são tempos de pausa, tempos de inspiração: uma oportunidade para se rever o sentido da caminhada e correrias em que andamos metidos. Jejuamos para nos consolidarmos na vida e através da acção, da reflexão e da oração nos situarmos num estádio fora da luta e da concorrência; deste modo, torna-se mais possível aceitar-se a si como se é e dar lugar à oportunidade para ser-se melhor do que se é.

O Papa Francisco diz: ”A Quaresma é a hora de respirar novamente”; isto implica um estado de abertura para si e para os outros.

Exercício

O dentro e o fora tocam-se e cruzam-se, nos pulmões, numa troca de mistura de elementos tóxicos (CO2) e saudáveis (Oxigénio). Nos mesmos pulmões se junta o bom e o mau, que nos proporcionam o sentido da plenitude. (Respiração – inspiração e expiração – podem ser experimentadas como metáfora da interligação da vida espiritual e material.)

Num exercício simples de respiração (inspiração e expiração conscientes), poderíamos inspirar a alegria e expirar a energia negativa. Tal exercício, feito por cristãos, é aliado, muitas vezes, à concentração numa palavra ou jaculatória no ritmo da inspiração e da expiração. Este respirar leva-nos a desligarmo-nos dos pensamentos, do estresse e daquilo que nos ocupa e possui. Entramos num relaxe de corpo e alma que nos liberta e concede asas para melhor voar!

Uma respiração lenta e profunda, feita conscientemente, além de proporcionar muito mais oxigénio nos pulmões pode levar-nos à ressonância com o todo na vibração de Deus que se inspira e expira corporal e espiritualmente. Leva a desligar-nos das energias mentais para passarmos à pura experiência de se ser um só no inspirar e expirar Deus ou, também, no caso de crente ou não, inspirar a energia que é Sol que nos inebria e expirar a maldade que nos escurece.

O MELHOR JEJUM

  • Jejum de palavras negativas e dizer palavras bondosas.
  • Jejum de descontentamento e encher-se de gratidão.
  • Jejum de raiva e encher-se com mansidão e paciência.
  • Jejum de pessimismo e encher-se de esperança e otimismo.
  • Jejum de preocupações e encher-se de confiança em Deus.
  • Jejum de queixas e encher-se com as coisas simples da vida.
  • Jejum de tensões e encher-se com orações.
  • Jejum de amargura e tristeza e encher o coração de alegria.
  • Jejum de egoísmo e encher-se com compaixão pelos outros.
  • Jejum de falta de perdão e encher-se de reconciliação.
  • Jejum de palavras e encher-se de silêncio para ouvir os outros.

António da Cunha Duarte Justo

(1). Os 15 atos de caridade que o Papa mencionou para a Quaresma:

*1. Sorrir, um cristão é sempre alegre!

*2. Agradecer (embora não “precise” fazê-lo).

*3. Lembrar ao outro o quanto você o ama.

*4. Cumprimentar com alegria as pessoas que você vê todos os dias.

*5. Ouvir a história do outro, sem julgamento, com amor.

*6. Parar para ajudar. Estar atento a quem precisa de você.

*7. Animar a alguém.

*8. Reconhecer os sucessos e qualidades do outro.

*9. Separar o que você não usa e dar a quem precisa.

*10. Ajudar a alguém para que ele possa descansar.

*11. Corrigir com amor; não calar por medo.

*12. Ter delicadezas com os que estão perto de você.

*13. Limpar o que sujou, em casa.

*14. Ajudar os outros a superar os obstáculos.

*15. Telefonar ou Visitar + Seus Pais.