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As razões do abismo

Os dedos das mãos dormentes,
que já não sinto, são asas,
os braços sem medo
simulando o voo próximo,
em bicos de pés fingindo
um equilíbrio que já não sei,
todo o meu corpo balança
à beira de um precipício
que não procurei.

Considerando se devo ou não ir-me
Considerando e calculando o tempo que demorará a queda de um corpo como o meu neste vazio
Considerando que depois de encontrar a solução da equação, o resultado já não interessará mais
Considerando como será a sensação estranha do ar entrando-me àquela velocidade pelas narinas e pela boca
Considerando se hei-de ou não fechar os olhos durante a viagem
Considerando se hei-de ir com ou sem sapatos
Considerando que qualquer posição majestosa que adoptar no sublime mergulho para a eternidade, serei ridículo e finito
Considerando se o meu coração aguentará a dose de adrenalina e de stress que me correrá pelas veias arrepiadas
Considerando se o meu cérebro se apagará ao adivinhar o extermínio
Considerando no que me atravessará o espírito nesse momento final
Considerando no que pensarei no último segundo
Considerando se estarei lúcido no instante antes do impacto
Considerando se estarei lúcido no instante depois do impacto
Considerando o aspecto pouco agradável que terá o meu monte de carne desfeita lá em baixo
Considerando que, pelo menos, os abutres apreciarão
Considerando que, pelo menos assim, servi para alguma coisa

Considerando que já não faço falta cá em cima
Considerando que nunca fiz falta
Considerando que fui um erro da natureza que a Terra não corrigiu
Considerando que só assim posso emendar o que Deus errou
Considerando que só assim me salvo de tudo isto
Considerando que só assim escapo ao meu destino
Considerando que só este será um acto que eu terei verdadeiramente decidido
Considerando que está na altura de ser eu a tomar este tipo de decisões, mesmo se é a última

Considerando que, com a minha partida, não se perderá grande coisa
Considerando que ninguém perderá grande coisa
Considerando que até podem, momentaneamente, sentir a minha falta
Considerando que isso depressa lhes passará, ao recordarem o meu mau génio
Considerando que não sou nem nunca fui indispensável a ninguém
Considerando que até o ozono e a floresta amazónica ganharão em eu partir
Considerando que toda a gente passará melhor sem mim
Considerando que o Universo é perfeitamente viável sem mim
Considerando que até o Futuro – não o meu –, será mais promissor assim
Considerando que só chateio, entristeço, estorvo, atrapalho, empato-fodas
Considerando que, assim, até eu próprio, já não terei de me aturar mais
Considerando que, assim, já não precisarei fingir
Considerando que, assim, já não poderei sentir
Considerando que, assim, já não poderei me dar
Considerando que, assim, já não me deixarei apaixonar
Considerando que, assim, já não poderei desiludir-me
Considerando que, assim, já não não poderão atingir-me
Considerando que, assim, já não chorarei
Considerando que, assim, já não sofrerei

Considerando que tudo continuará no melhor dos Mundos sem mim
Considerando, finalmente, que vim apenas para partir assim.

JLC 041202