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Artistas portugueses inspiram arte urbana no projeto “La Rue” em Paris

Os rostos de artistas portugueses que viveram em Paris estão, esta semana, a transformar-se em obras de arte urbana na capital francesa, no âmbito do projeto “La Rue”, que começou a 22 de setembro e decorre até domingo.

Numa ruela do bairro de Montmartre, há um cartaz com duas representações a tinta da China de Mário de Sá-Carneiro, a anunciar “Les Portugais dans les rues” e, algumas ruas adiante, há impressões, a ‘stencil’, dos rostos de Amadeo de Souza Cardoso e Costa Pinheiro.

Os cartazes, pinturas, impressões e serigrafias vão propagar-se a outros bairros parisienses ao longo da semana, devolvendo às ruas de Paris cerca de 40 figuras da cultura portuguesa que por ali já passaram.

As imagens são da autoria de Pedro Amaral e Ivo Bassanti, que assinam como Borderlovers e que foram convidados pelo Centro Cultural Camões em Paris para participar na iniciativa “La Rue” do Fórum dos Institutos Culturais Estrangeiros de Paris.

Esta segunda-feira à noite, durante uma das ações de rua em que foi acompanhado pela artista Margarida Coelho e pela fotógrafa Sandra Rocha, Pedro Amaral contou à Lusa que há intervenções espontâneas “com ‘stencils’ e cartazes” e outras mais performativas, como a que fez em homenagem a Mário de Sá-Carneiro.

Também estão previstas ações “mais massivas e de colagem na parede” junto da casa onde viveu e trabalhou Maria Helena Vieira da Silva, perto de uma das muitas habitações onde morou Amadeo de Souza Cardoso e em frente ao restaurante português Comme à Lisbonne. Para todas, Pedro vai vestir um ‘kilt’ feito a partir de uma bandeira portuguesa e no qual imprimiu o rosto de Amadeo de Souza Cardoso, assim como um casaco com a cara de Costa Pinheiro.

Na quarta-feira, na rampa de acesso ao Centro Pompidou, vai haver uma exposição de várias pinturas, onde se vão poder ver representações de Amadeo de Souza Cardoso, Vieira da Silva e Mário de Sá-Carneiro, mas também José-Augusto França, Eduardo Prado Coelho, António Nobre, Mário Cesariny, Sérgio Godinho, Júlio Pomar, Costa Camelo, entre outros.

Para Pedro Amaral, estas representações são “homenagens simples” e “uma coisa que tinha mesmo de ser feita”.

“Todos os que estão a ser representados foram acolhidos por França e por Paris de alguma forma, coisa que também me aconteceu a mim e eu também sou artista. Acho que temos uma dívida imensa. Nós não existiríamos se eles não tivessem existido”, considerou.

Para João Pinharanda, diretor do Centro Cultural Camões em Paris, que está a coordenar a participação portuguesa no evento, o resultado “já ultrapassou todas as expectativas”.

“Temos a possibilidade de desenvolver o trabalho em duas direções inesperadas. Por um lado, a publicação de um livro que funcionará como um catálogo e que prolongará a vida das intervenções efémeras que são as intervenções da rua (…). Por outro, é a possibilidade de fazermos uma exposição ou várias exposições a partir do corpo de trabalho que é muito mais largo do que aquele que podemos por na rua”, explicou.

João Pinharanda acrescentou que a participação portuguesa se alargou a Ângelo Ferreira de Sousa que deu ao projeto “uma nova direção mais conceptual e uma intervenção quase mais política”, com “uma espécie de comentário português à cultura e realidade francesa”.

Partindo da citação do poeta Rimbaud “Je est un autre”, Ângelo Ferreira de Sousa escreveu nas paredes, em sentido contrário, as frases “France est une autre” e “France, suis une autre”, tendo depois fotografado, invertido e colado imagens nos mesmos muros num jogo de espelhos e inversões.

“Há duas referências ao outro e o outro é a referência a todos os outros que também construíram a França, que são os estrangeiros. Quero dizer, a França é muito mais do que o país dos franceses, é também uma nação que soube, mal ou bem, acolher gente de todo o mundo, incluindo os portugueses”, descreveu o artista.

O festival “La Rue” vai ainda contar com a participação de Lúcio Martins Faria, um português que há mais de 20 anos canta fado com timbre de saxofone no metro de Paris e que deverá tocar aquando da exposição dos Borderlovers em frente ao Pompidou.

No programa da semana está também o Rancho de Cantadores de Paris, que é um grupo de cante alentejano composto por parisienses de várias nacionalidades, e um concerto de piano a quatro mãos da formação “20 Fingers”, composta por João Vasco e Eduardo Jordão, com um repertório que vai da sonata clássica ao ‘ragtime’, do tango ao chorinho, “de Bach a Chico Buarque”.

Há ainda cafés e mercearias finas portuguesas que se associaram à iniciativa.