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Opinião

100 anos de terror

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Por estes dias, há quem se diga democrata, mas celebre o centenário da Revolução de Outubro de 1917 na Rússia. Tão absurda como a contradição nos termos – os finados regimes comunistas, como os resquícios sobrevivos, foram e são ditaduras opressivas – é a possibilidade de haver quem lhes defenda as virtudes em pleno século XXI. Respeitados conceptualmente, comunismo e democracia são a antítese de si mesmos. E comparativamente ao nazismo, como a quaisquer outras expressões políticas totalitárias e ditatoriais, os regimes comunistas, tomados pelo conjunto, ganham largamente na longevidade e no número de vítimas. Não é preciso ler o Livro Negro do Comunismo, editado por Stéphane Courtois, para se perceber que é assim. Os factos constam de qualquer historiografia isenta.

Num artigo de opinião publicado esta semana no DN, Jerónimo de Sousa louvou Lenine, Marx e Engels, relatou os progressos sociais da União Soviética e enalteceu as conquistas científicas do regime, particularmente no espaço. Convenhamos que qualquer doutrinador parcial encontraria na casuística virtudes equivalentes no hediondo regime nazi, da redução do desemprego ao aumento da produção e da renda nacional, sem esquecer os desenvolvimentos científicos e tecnológicos e os cientistas capturados que no fim da guerra asseguraram o desenvolvimento dos programas espaciais soviético e norte-americano. O que choca no pensamento de Jerónimo de Sousa, coincidente com a essência do PCP, é a desvalorização de tudo o resto, visível em cada recanto do planeta onde o comunismo alguma vez tenha sido, ou seja poder. Os milhões de mortos da purga estalinista, os “gulag”, as deportações em massa, milhares de inocentes baleados quando procuravam a liberdade a salto fugindo das ditaduras soviéticas para o Ocidente, os milhões de mortos às mãos da revolução e do regime comunista chinês, os milhões de mortos na Coreia do Norte, no Camboja, no Vietname, em África e na América Latina, os oprimidos, os presos por delito de opinião e tanto, mas tanto mais, que nenhum democrata de verdade alguma vez se permitiria silenciar.

Tido isto em conta, até se percebe que delegações da Coreia do Norte, de Cuba e da Venezuela se passeiem pelas festas do “Avante”, com estatuto de convidados de honra, com a mesma facilidade com que dirigentes comunistas debitam discursos sobre o défice democrático na UE.